Violência no Rio – entre muitos paliativos e apenas uma solução

Ricardo V. Malafaia     24/set/2017                                                                                                                                                             

Rocinha

Precisamos ter em mente, em primeiro lugar, que, apesar de o Rio viver imerso num caldo de violência profunda há algumas décadas, existe sim saída. Apenas uma, mas existe. Contudo, este caminho não pega carona em nenhum tipo de ação que já tenha sido executada até então pelo Estado. Muito pelo contrário.

Apesar do Secretário de Segurança da cidade ter dito, quando as Forças Armadas iniciaram o cerco à Rocinha, que não vivemos numa guerra, já colhemos, somente neste ano, um número sem precedentes de mortes de agentes de segurança. Ora, uma guerra se traduz por um confronto disposto entre dois lados armados lutando por terras, riqueza ou poder. E, portanto, não é isso a que assistimos diariamente? Infelizmente, estamos mergulhados até o pescoço numa guerra urbana. De um lado, o crime procurando se organizar, e de outro, um Estado inepto e corrupto.

Além da geografia da cidade do Rio e do fato de pertencerem e viverem misturados às populações locais, facções de narcotraficantes e milícias têm se valido da promiscuidade de parte dos agentes de segurança e do judiciário. E são estas as razões que fazem com que quaisquer ações de força por parte do Estado não tenham aderência. Não traduzem em paz e sossego com efetividade! Apesar da assimetria desta guerra, os poderes, na prática, acabam se equivalendo e se alternando. É o famoso “enxuga gelo”.

Esse quadro apresenta uma situação de difícil solução, a não ser por uma vulnerabilidade. Sim, há um ponto fraco neste poder paralelo. Quando, por exemplo, durante uma determinada batalha, um dos lados, sendo mais poderoso, faz um cerco ao inimigo que está sitiado dentro de uma fortaleza, adota-se a estratégia de sufocar a sua capacidade de manutenção. Num certo momento, o lado sitiado entrará em colapso. E a História é farta de batalhas do tipo. Contudo, qual a mais efetiva forma de buscar o colapso deste poder paralelo?

bandeira

Considerado o primeiro pensador moderno e pai da Sociologia, o francês Augusto Comte, que viveu no início do século XIX, afirmava que a sociedade, para funcionar de forma adequada, necessitaria estar primeiramente organizada, para depois poder alcançar o progresso. Essa corrente filosófica, chamada Positivismo, acabou inspirando o lema de nossa bandeira “Ordem e Progresso”. De fato, nenhuma estrutura pode funcionar a contento se não estiver organizada. Isso vale para um time de futebol, para uma empresa, ou para uma cidade.

O Estado tem suas atribuições constitucionais. Uma delas é manter a ordem. Dela não se pode, absolutamente, abrir mão! A “mão de ferro” precisa se fazer presente. Os últimos governos, principalmente o federal, negligenciaram esse setor. No início deste ano, foi criado, enfim, o Plano Nacional de Segurança, estabelecendo metas, e prevendo a integração entre União, estados e municípios. Sua eficácia, contudo, precisa ser posta à prova.

No caso do Rio, evidentemente, a reconquista territorial se faz necessária. E isso era parte do projeto das UPPs. Mas como avaliar adequadamente seu sucesso ou fracasso se tínhamos um governador que se preocupava apenas em roubar? De qualquer forma, a partir de agora, precisamos visar a retomada destas áreas. Contudo, são mais de 800 comunidades controladas pelo crime organizado. Não há logística que dê conta!

E ainda há um problema maior que se coloca entre a atual e trágica situação e a esperança de dias melhores: não temos lideranças capazes de atuar de forma adequada e contundente. Somos, de fato, carentes de líderes que tenham a coragem e a independência para agir!

Retornando, pois, à pergunta anterior, de que forma o colapso do poder paralelo pode ser enfim alcançado?  Com esta finalidade, muito se fala na luta para barrar a entrada de armas e drogas através das fronteiras. Mas se o próprio Estados Unidos, com todo o seu aparato tecnológico e policial, e com apenas uma única fronteira problemática, não conseguem lidar adequadamente com o tráfico de drogas e de pessoas, como o Brasil conseguirá vigiar, de forma eficaz, as suas gigantescas fronteiras que faz com quase todos os países do continente, parte delas situadas na selva amazônica?

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De fato, a única maneira de solucionar, em caráter permanente, o problema da violência, fruto do poderio das facções criminosas, é interrompendo o fluxo de sua principal matéria-prima: a criança moradora da comunidade. Sem ela, não haverá renovação em sua estrutura, uma vez que a expectativa de vida de um traficante é muito baixa. Em outras palavras, se afastar a criança das garras do tráfico, em 15 anos no máximo, este poder paralelo estará ferido de morte! E a sociedade não precisará esperar por todo esse período sofrendo. A própria sinergia das ações se encarregará de antecipar seus benefícios!

Existem inúmeras razões que fazem com que muitos meninos, e até meninas, entrem para essa vida. Evasão escolar, contato muito próximo com o crime, abandono paterno e violência doméstica são algumas das causas que contribuem para o ingresso no tráfico. Da mesma forma como grupos armados atuam nas repúblicas centrais da África, estas crianças, ao fazerem parte de sua estrutura, são facilmente cooptadas e doutrinadas, tirando delas a chance de buscar, num futuro, um outro caminho.

Quando os governos decidirem investir nestas crianças, colocando-as em escolas de tempo integral. Quando promoverem atividades culturais e esportivas nos finais de semana. Quando derem apoio psicológico e orientação aos pais. Quando agirem eficazmente para zerar a evasão escolar. Enfim, quando tudo isso for feito, poderemos assistir, então, a redução significativa da estrutura destas facções criminosas, pois terão muitas dificuldades para se renovarem.

Ao contrário do que possa parecer, precisa-se muito mais de liderança política do que de recursos. Afinal, é de conhecimento universal que o investimento para se manter um criança na escola é substancialmente menor do que qualquer outro gasto necessário à manutenção do aparato da segurança pública.

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Quando estas mesmas lideranças tomarem, enfim, a decisão de buscar este caminho, a sociedade irremediavelmente estará ao seu lado. E também não medirá esforços para contribuir nesta direção. Se, por um lado, teremos menos bandidos, por outro, teremos mais médicos, engenheiros, professores, e até filósofos. Não há outra saída! A questão não é se, é quando isso será feito!

9 comentários

  1. O ex-secretário de segurança, Beltrame, lá atrás, no início das UPPs, sempre martelou nessa tecla, que o Estado tinha que entrar com a parte social. Infelizmente, era uma voz solitária.

  2. Muito interessante a sua visão, nunca havia parado para pensar nisso. Como diz o ditado, “matar 2 coelhos com uma paulada só”. Menos bandidos e mais adultos instruídos. Simples e eficaz, porém um processo lento, que precisaria ser colocado em prática o mais rápido possível. Acrescento ainda um outro ponto que ajuda em todos os segmentos da nossa sociedade, a lei da tolerância zero. Não podemos aturar mais qualquer fraqueza, temos que fazer o que é correto sempre.

  3. Excelente texto Ricardo. A criança é a solução para todos os conflitos existentes e o futuro da nação . Afastando-a da convivência nefasta do ócio , violência e desamor familiar teremos a extinção do narcotráfico . Temos que estimular o exercício do cérebro através do estudo, do físico , praticando esportes e do espírito através da religião .

  4. Excelente texto, Ricardo!!! Concordo plenamente com vc ao afirmar que a saída é educar as crianças, colocando-as em escolas e afastando-as da criminalidade. Parabéns👏👏👏👏👏

  5. As soluções são claras e acredito que do conhecimento dos que ocupam os cargos competentes para tomá-las. O que falta é vontade política e comprometimento com o bem comum.
    Excelente análise, Ricardo.

  6. Acho que são várias as ações a serem implementadas. A educação nas comunidades é realmente uma delas e se torna fundamental para o futuro.
    Em paralelo à ação da intervenção da força do Estado contra os grupos armados imediatamente que tocam terror na cidade, é fundamental a alteração na legistação penal. Um absurdo o que aconteceu na Rocinha estes dias. Grande parte dos bandidos estavam presos. Eentretanto, um juiz (Ciro Darlan) concedeu liberdade aos bandidos extramamente perigosos baseado em desculpas de atrasos em depoimentos. Inadimissível a segurança da sociedade ficar em segundo plano…
    Se não mudar a legislação penal e ainda existirem juízes corruptos, os que estão sendo presos novamente agora em breve estarão nas ruas aterrorizando todos nós mais uma vez, e voltamos a “enxugar” gelo novamente…

  7. Voltamos ao post anterior. Estamos falando do mesmo problema, políticos corruptos! Enquanto eles estiverem no poder, impossível pensarmos em foco na educação.
    A questão é como fazer para termos políticos honestos numa sociedade em que o “jeitinho” é bem visto?

  8. Realmente, acho que muitas de nossas questões partem sempre de uma, estrutural: desigualdade de acessos e oportunidades. Tava lendo uma matéria sobre um dos chefes do tráfico na Rocinha que chegou ao morro trabalhando como carpinteiro e, por conta de uma grave doença de sua filha, precisou de muito dinheiro e acabou se envolvendo com o tráfico.. E nisso se vão diversas histórias similares. Acho que enquanto a segurança pública for tratada como uma guerra entre lados, não vai existir solução. População e policiais morrendo diariamente, populações das comunidades do Rio sofrendo abusos e arbitrariedades tanto do tráfico, quanto de agentes estatais, milicianos ou não. E tudo nessa lógica que visa a diversos interesses, menos o coletivo, social. Tráfico de armas e drogas sendo financiado e organizado por milionários e políticos…ta difícil! Demais! E ainda vejo o atual governante do estado do Rio falando na TV que está tudo sob controle..realmente, pros interesses dele está. Aonde vamos sociedade?

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