O egoísmo

Ricardo V. Malafaia     15/out/2017                                                                                                                 

centro do sistema solar

O ser humano é uma perfeita máquina, que se desenvolveu ao longo de algumas centenas de milhares de anos. A seleção natural de Darwin, sempre escolhendo os indivíduos com variações mais favoráveis, premiou aqueles que carregavam os mecanismos mais direcionados à sua própria autopreservação. E, como animal que somos, o instinto de sobrevivência comandou as nossas ações por um longo tempo. Até o momento em que concebemos uma de nossas mais impactantes invenções: a civilização.

A partir desta era, os nossos instintos mais primitivos precisariam sofrer um processo de domesticação. Em consequência, a reboque da civilização, para conviver com um mínimo de concórdia, leis precisaram ser criadas, seguidas pelos respectivos direitos e deveres. E, por fim, através de um estágio mais evoluído, a sociabilidade. Contudo, a história não reservaria, num futuro distante (nos dias de hoje), o final esperado. E este processo de aprimoramento acabaria fracassando!

Os nossos instintos primitivos, rebeldes por natureza, não permitiriam, enfim, que nos tornássemos civilizados. Infelizmente! No caminhar frustrante do “enquadramento” destes básicos instintos, restaram-nos apenas caricaturas de comportamento. E, desta forma, o egoísmo nasceu. Da domesticação mal feita do nosso instinto de sobrevivência!

Contudo, o que é ser, de fato, uma pessoa civilizada? Entre tantas definições, ser civilizado é agir com cortesia. É ser bem-educado, instruído. Em última análise, é saber administrar e conviver com as diferenças alheias. A partir deste princípio, como pode, então, uma pessoa cortês ser egoísta? Na verdade, não poderia! Pelo menos, não deveria. Entre a cortesia e o egoísmo, frente às suas respectivas naturezas, há um enorme abismo os separando.

Com efeito, o egoísta clássico tem dificuldade em viver numa civilização, numa sociedade. Seu amor exagerado por si próprio e pelos seus interesses não considera o próximo. Efetivamente, ele despreza o seu semelhante. Portanto, ser egoísta é não ser civilizado!

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O egoísmo, entretanto, conhece disfarces. Suas múltiplas formas esgueiram-se entre as fraquezas e as limitações de cada ser humano. E como todos as temos, em grandíssimo número, ele certamente está presente em cada um de nós, em diversos formatos, independente do nosso consentimento. Na verdade, somos feitos de carne, osso e egoísmo!

Afirmação forte? Quantas vezes presenciamos crianças, ainda muito pequenas, expondo alguma dificuldade para compartilhar algum brinquedo ou pertence com algum colega? Como descendente direto do nosso instinto de sobrevivência, o egoísmo já está calcificado em nosso inconsciente coletivo.

Todavia, paralelamente, assistimos, em outras ocasiões, demonstrações espontâneas de generosidade entre meninos e meninas. E isso acontece porque o bem, felizmente, faz parte de nosso ser. Promover o bem nos traz uma sensação prazerosa. E a neurociência vem reiteradamente comprovando a direta conexão entre a sua prática e a consequente sensação de recompensa.

Dentro de nós, este conflito é permanente. O egoísmo confronta-se, de maneira recorrente, com o desejo de fazer o bem ao próximo. Para uns, este dilema é mais significativo. Para outros, menos. E, para terceiros, nem existe. No entanto, há dois tipos de generosidade. A caridade e o altruísmo. O primeiro está geralmente ligado à partilha de uma simples sobra. O segundo, de algo que nos fará falta. Valioso, como, por exemplo, o nosso tempo!

muro

Apesar de seu aspecto humano, o egoísmo precisa ser transposto. A todo custo. De fato, ele é incompatível com o amor e com a amizade. Com o espírito público e com a civilidade. Com o bem estar e com a felicidade. Uma sociedade que precisa urgentemente encontrar o seu rumo não terá chance alguma se não romper com as amarras do individualismo. Ela clama e chora por ajuda! Mais do que os governos ruins, a frieza de cada cidadão é o seu maior vilão!

Qual a chance de um indivíduo de baixa estatura, muito tímido e com medo do escuro, derrotar um grande império? E usando apenas duas armas incomuns: a sua força interior e os seus ideais pacifistas? Tendo sido preso, espancado, feito greve de fome, caminhado de forma emblemática por mais de 400 km, Mahatma Gandhi enfrentou o Império Britânico e libertou uma nação formada por centenas de milhões de pessoas.

Morando numa região ameaçada por um regime opressor, uma menina de apenas 11 anos lutou contra as injustiças praticadas contra as mulheres, em especial a proibição de frequentarem a escola. Mesmo correndo risco de vida, nunca se calou. Em 2012, acabou atingida por 3 tiros. Ficou em estado crítico e inconsciente por muito tempo. Aos 17 anos, Malala Yousafzai se tornou a pessoa mais jovem a receber um Nobel da Paz. Contudo, se certos indivíduos podem realizar tarefas extraordinárias, por que a força de um coletivo não pode mudar uma sociedade?

Vivemos num mundo veloz, repleto de dificuldades. Mas, também, de oportunidades. E estes múltiplos caminhos que estão postos diante de nós podem ser trilhados, inclusive, pela solidariedade. Mas esta só terá realmente valor, se sacrificarmos algo que nos é caro. Escasso, como o tempo. Tempo para transformar a vida do próximo, sem esperar nada em troca!

Em muitos países é comemorado, no dia 20 de dezembro, o Dia Internacional da Solidariedade Humana. Instituído pela ONU em 2005, seu objetivo visa superar, através da ação coletiva, os problemas globais, alcançando mais desenvolvimento, e construindo um mundo melhor e mais seguro.

Porém, em nossas terras, o nosso desafio é imenso. E por que não doarmos um sábado por mês à coletividade? Se dezenas assim o fizerem, vidas de muitos poderão ser modificadas. E se centenas procederem desta forma? Ou milhares? Quanto de nosso em torno poderá ser reconstruído!

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Em algum momento de nossas vidas, quantos de nós já nos propusemos, dentro de nossos próprios silêncios, que, um dia, doaríamos parte do nosso tempo aos nossos semelhantes? Mas os anos foram passando, e os nossos afazeres foram capturando pra si os nossos mais íntimos compromissos!

Acreditem. A nossa realidade pode ser mudada. Atualmente, há inúmeras pessoas movidas pela solidariedade. Nas comunidades carentes do Rio de Janeiro, por exemplo, existe um grupo que luta, incansavelmente, contra a evasão escolar, indo ao encontro de cada uma das crianças e jovens que pararam, pelos mais diversos motivos, de ir às aulas. São cidadãos que fazem! São cidadãos que inspiram!

Que estas ações sejam multiplicadas! Cada qual fazendo a diferença na sociedade, dentro de suas competências ou habilidades. Quantos aposentados, do alto de suas experiências de vida, ainda podem fazer a diferença! Quantos profissionais em atividade podem ceder, apenas, um sábado por mês para mudar o mundo!

proximo

A nossa vida é mais do que os nossos olhos veem. É mais do que as nossas mentes compreendem. É mais do que os nossos corações sentem. Há muitos seres humanos que, neste exato momento, precisam de algum tipo de ajuda. Mesmo que seja, simplesmente, de uma palavra!

Se muitos tiveram a sorte e o mérito de encontrar, em sua jornada, um lugar ao sol, que devolvam um pouco à sociedade, através da sua solidariedade. Sim, a sociedade pode ser transformada! Mas não será com o egoísmo. Será com amor ao próximo. Será com a coragem de lutar. E de buscar a sensação reconfortante do dever cumprido! E de pertencer àqueles que ajudam a transformar o mundo!

7 comentários

  1. Concordo inteiramente com vc. O mal de hoje é que não se pensa no outro; a maioria das pessoas olham apenas para si, sem se preocupar com o bem estar, lado emocional e físico do seu companheiro, parceiro, amigo e até familiares. Os próprios políticos, como estamos vendo, usaram p eles próprios os “benefícios” aos quais a população é que teria direito. Daí a razão de não termos escolas, hospitais, estradas em bom estado etc… Impressiona, realmente, o egoísmo das pessoas que se esquecem que se derem um pouco de si, farão um bem enorme ao semelhante e, com isso, a humanidade. Parabéns!!

  2. Ontem eu comentei o seu artigo mas não sei onde foi parar. Achei muito sensível e apropriado para a nossa atualidade. Como já havia dito, temos que olhar o próximo com mais compaixão e generosidade. O maior legado de cada pessoa é se conduzir com amor responsabilidade e atitude proativa com todas as coisas que lhe rodeiam.

  3. Parabéns Ricardo!
    De agradável leitura, o texto é oportuno, verdadeiro e muito inspirador…
    Obrigado! Gostei demais… vamos à luta!

  4. Emocionante e verdadeiro seu texto. Temos em mãos a arma mais poderosa para fazer nossas vidas e a do próximo mais felizes e, por consequência, um mundo mais justo e melhor: solidariedade.
    Excelente texto. Parabéns Ricardo.

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