O peregrino estrangeiro

Ricardo V. Malafaia     29/out/2017                                                                                                         

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Um antigo amigo de José, que mora há muitos anos na Catalunha, recomendou a um outro amigo europeu, peregrino, a Caminhada da Luz, em terras brasileiras. Esse percurso remonta aos antigos índios e sua fé. Duzentos quilômetros de imagens desconcertantes pelas montanhas de Minas Gerais. Após uma semana de esforço e reflexão, chega-se ao Pico da Bandeira. Assim, poucos meses depois, José e o peregrino europeu se encontraram. E, a jornada, a qual acabaria produzindo um forte impacto em ambos, teve o seu início.

Alto, magro, muito branco, olhos bem claros e com idade avançada, o peregrino parecia originário da Escandinávia. Usava uma espécie de túnica bege e sempre portava o seu próprio cajado. Para sorte de José, falava inglês muito bem, embora fosse extremamente reservado. Comunicava-se quase exclusivamente por gestos. E assim, ambos conviveram durante uma semana, pelas montanhas de Minas.

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O primeiro dia foi o mais extenuante. Subiram montanhas e montanhas sob um sol escaldante. Pernoitaram numa casa de família muito simples, acostumada a receber aqueles que estão em busca de algo mais intangível. No jantar, José ouviu a voz do peregrino pela segunda vez. A primeira foi quando se conheceram.

– Antes de chegarmos nesta pequena cidade, avistei muitas crianças trabalhando no campo. Como pode? – perguntou o peregrino.

– A maioria das crianças da área rural, por necessidade, trabalha na lavoura. E parte delas não vai à escola. Mas sempre foi assim. – respondeu José, meio sem jeito.

Foram dormir.

Na manhã seguinte, muito cedo, após um café da manhã simples, mas preparado com muito zelo por quem os acolheu por uma noite, saíram para continuar a sua jornada. Sem antes, contudo, José perceber que o peregrino recolhera algumas pedras num saco.

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Os dias de caminhada continuaram. Pouco conversavam. O silêncio, porém, era interrompido frequentemente pelos cantos dos pássaros, pelo correr das águas dos riachos, pelo entrelaçar das folhagens, pelo assobiar dos ventos. E, também, pela meditação de seus interiores.

As poucas vezes em que conversavam, assim o faziam somente às noites, a partir de alguma situação capturada pela atenção do peregrino durante os percursos. Como aconteceu após assistirem na televisão, durante um jantar num restaurante de beira de estrada, uma reportagem sobre a violência nos centros urbanos do país.

Ou quando passaram em frente a um posto médico de uma vila e presenciaram as precárias condições dos atendimentos prestados. Ou quando avistaram crianças estudando em escola sem teto, apenas com paredes. Ou quando perceberam que uma pequena indústria despejava substância química diretamente no córrego ao lado, fazendo-o continuar seu curso com uma cor estranhamente avermelhada. Sem o menor pudor!

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Na noite quando mais conversaram, José detalhou todos os escândalos de corrupção que vieram à tona nos últimos anos, envolvendo os políticos e os empresários mais poderosos. Mesmo sendo um homem de sabedoria e muito mais habituado a meditar do que a externar emoções, não conseguiu disfarçar suas expressões faciais que claramente denunciavam um sentimento de profunda revolta.

– Seu povo não merece. – limitou-se a dizer. E se recolheu.

Uma situação que chamou a atenção de José, por diversas ocasiões, foi vê-lo recolhendo pedras, algumas vezes numa quantidade maior, outras, em quantidade menor, todas as manhãs. E sempre as colocando no mesmo saco.

A certa altura da viagem, não mais escondendo a sua curiosidade, José perguntou:

– Por que guarda tanta pedra, uma vez que elas não têm valor comercial?

– São apenas para recordação! – respondeu muito secamente o peregrino, não dando nenhum espaço para qualquer outro tipo de indagação.

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Após presenciarem belíssimas paisagens ao longo da caminhada, culminando com uma espetacular vista a partir do terceiro pico mais alto do país, a jornada chegou ao fim.

Ao contrário do senso comum, na despedida entre os dois companheiros de viagem, a afirmação de que os nórdicos eram frios não parecia corresponder à realidade. Ao ser comedidamente abraçado pelo peregrino, José percebeu um homem tentando esconder a sua sensibilidade e emoção, por trás de suas rígidas feições, forjadas por congelantes temperaturas de sua terra natal.

Neste momento, o peregrino deu o saco cheio de pedras ao brasileiro. Surpreso, José lembrou o que tinha anteriormente escutado.

– Essas pedras não são recordações da viagem?

– Sim. Elas são.

– E por que motivo está me entregando? – quis saber José.

– Porque não são para as minhas recordações. São para as suas.

Mesmo sem saber a razão, José agradeceu. Mas sem se conter, perguntou:

– Por que se preocupou em carregar este peso extra ao longo da viagem? E ainda mais, para dar de presente a mim, que sou daqui mesmo, e não tenho intenção de ir embora da minha terra?

– As pedras não são para lembrar a nossa caminhada.

E continuou, revelando a sua intenção:

– Guarde-as para que possa sempre se recordar do quão paciente é o seu povo. De fato, para cada história repleta de injustiças e absurdos que me contou sobre o seu país, eu ia juntando um punhado de pequenas pedras para representar o tanto de paciência que o seu povo acumula para cada privação que passa. Esse saco de pedras representa o fardo que o seu povo carrega!

– Mas paciência não é uma virtude? – tentou amenizar José.

– Depende. Se for acompanhada de um objetivo, sim. É uma virtude. Como é o caso da resiliência. Entretanto, se for acompanhada de sofrimento sem fim, é apenas submissão.

Atônito, José perguntou:

– Há poucos dias atrás, percebi que parou de juntar as pedras. Mas, mesmo depois disso, continuei a contar sobre o meu país. Por que então não prosseguiu colocando mais?

O ancião respondeu:

– Porque já estava pesado demais. Eu não conseguia suportar mais peso além daquele.  Não sei como vocês aqui no seu país suportam tantas injustiças e abusos calados!

José, paralisado, sem quase conseguir esboçar alguma reação, indagou:

– Se o peso do saco de pedras estava no limite de suas forças, já há muitas horas de caminhada, por que não pediu para ajudá-lo?

Ao que o peregrino retrucou;

– Ao longo da viagem, ouvindo suas histórias, sempre me questionava o motivo de vocês aguentarem tudo calados. Eu precisava carregar todo esse peso sozinho por muitas horas para poder entender o porquê.

Percebendo, nos olhos cansados e aflitos de José, a dúvida se de fato gostaria de saber o motivo, continuou:

– De tão pesado o saco de pedra, a gente acaba se acostumando. Pois a dor é tanta, que tudo na gente fica adormecido. E é o que acontece com vocês. Acostumaram-se com muito peso nas costas. Uma espécie de torpor coletivo. Já estão domesticados pelos poderosos! E nem se dão conta disso!

Ao se despedirem, afastaram-se. Mas, antes que não se vissem mais, José, buscando sua última gota de coragem, virou-se, e disse:

– Lembro que, apenas numa única vez, você retirou do saco uma porção grande de pedras ao invés de colocar. Pensei que as tivesse achado feias.

O peregrino respondeu:

– Na verdade, eram as mais bonitas que encontrei ao longo de toda a viagem, neste maravilhoso país.

– E por que as tirou então? – insistiu José.

– Quando me contou a história sobre todas as intolerâncias que brasileiros vociferam entre si, defendendo poderosos e populistas que enganam todos vocês, vi que precisava retirá-las.

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E continuou:

– Neste momento, percebi que, se por um lado, vocês têm uma infinita paciência com seus representantes que os ludibriam, por outro, são extremamente intolerantes com a sua própria gente.

– Não percebem que essa intolerância é idealizada e fabricada propositalmente em benefício apenas deles, que brigam na frente da mídia, mas que se divertem juntos nas alcovas. Pobre povo que vê, mas não enxerga! Vocês são propositalmente divididos para ficaram mais fracos!

E concluiu:

– Por isso, neste momento, quando me contou sobre tais intolerâncias que distanciam os próprios irmãos, retirei do saco aquelas pedras verdes, que brilhavam como mata úmida, e tinham leves veios dourados. Realmente, eram as mais bonitas de toda a viagem. Abandonei-as todas nas estradas que percorremos.

O peregrino, então, fez um ligeiro aceno com a mão. Virou-se e continuou o seu caminho. José ficou imóvel, olhando-o se afastar, até não conseguir enxergá-lo…

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Nunca mais se viram.

 

 

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13 comentários

  1. Pois é Geórgia. É muito triste realmente. O fardo que o nosso povo carrega há séculos é insuportável. Está na hora de eliminarmos esse peso. E mudarmos o nosso destino!

  2. Que linda história, apesar de triste! Gostei de ler um conto no seu blog, me senti no meio da caminhada junto com os dois peregrinos.

  3. Ricardo!
    Bonito esse conto!
    Você fala com muita propriedade de assuntos que nos tocam profundamente!
    Realmente, uma grande parte da população brasileira carrega suas pedras, com resignação…

  4. Muito bom Ricardo. Penso que a corrupção está em toda parte e depende muito da formação de um povo. Sempre houve exploração de nossas riquezas minerais agrícolas e escravocratas. É um desvio que remonta à época do descobrimento do Brasil. . Assim, o caminho passa pela educação e interesse na escolha dos nossos governantes. Para isso o importante é a proatividade de todos no estudo , no trabalho , na informação e consciência de que há muito que ser feito e ir à luta para traçar novos caminhos. Estudar é a solução. Um povo educado e com boa educação EVOLUI !!!!!!!

  5. De fato, a educação de um povo é tudo! Porém, entendamos que uma educação de qualidade não passa apenas pela área acadêmica. É mais do que isso. Passa também pelo correto aprendizado na qualidade de cidadão e cidadã. Ainda não temos ideia de nossa força. Precisamos substituir a nossa alienação e submissão pelo controle de nossa nação! E isso também é educação. Já aguentamos muita coisa calados. Basta de conformismo! Obrigado, Verônica.

  6. Muito bom texto, Ricardo. Mas discordo dessa espécie de separação entre “povo” e “poderosos”, já que a roubalheira no Brasil é bem democrática: vai de um diretor que superfatura compras até uma faxineira que leva uns “papegienicos” pra casa.

  7. Que bom que parece!!! Sobre a “democratização” da roubalheira, há uma diferença. Embora não pareça, pois o mal faz mais barulho do que o bem, a maioria do povo brasileiro é honesto. Quanto ao mundo político, honestos são exceções. A diferença reside nos percentuais! Obrigado Ricardo!!!

  8. Perfeito Cláudia. Na verdade merecemos governantes muito melhores. Se não soubemos escolhê-los até então, que aprendamos! Errar não é destino! Obrigado!!

  9. Mais um texto maravilhoso! Parabéns, e esse é o peso que carregamos. E não sabemos até quando!

  10. Triste do povo que só tem suas belezas naturais para se orgulhar!
    Quem faz a sua história é o próprio povo, de onde saem os governantes e os heróis. Não há dissociação entre eles.
    Cada povo tem os governantes que merecem, já que numa democracia há a possibilidade de escolha ou de não escolher.
    Temos muito que aprender sobre cidadania, responsabilidade social, direitos e deveres, bem comum, etc. E só há um caminho: educação de qualidade.
    Excelente texto. Parabéns!

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