Racismo, o que está por trás do preconceito?

Ricardo V. Malafaia     26/nov/2017                                                                                                     

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O ser humano carrega um organismo extremamente complexo. E embora tenha uma capacidade imensa de adaptação, continua sendo refém de sua própria origem. Por mais conhecimento que tenha adquirido no decorrer dos séculos, segue carregando os seus próprios medos. E o abismo que separa a sua capacidade intelectual das suas fragilidades psicológicas tem sido provedor, ao longo de eras, de sofrimentos alheios sem fim.

Ao mesmo tempo que somos capazes de promover avanços tecnológicos quase inacreditáveis, também somos muito eficazes na produção de guerras, da exploração humana e da execução de barbáries. Mergulhados dentro de nossa incoerência, procuramos ser civilizados, e até refinados, sem nos darmos conta, porém, de nossa própria dualidade. Uma degustação de um vinho da região de Bordeaux à noite, e uma piada grosseira entre amigos de dia!

Entre tantas fragilidades de que somos feitos, o medo é o imperador. E quando a razão é por ele substituída, a desordem chega sem cerimônia. Ato contínuo, vítimas são feitas em virtude deste caos psicológico. E o racismo é um de seus exemplos mais perversos e longínquos.

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Pesquisa desenvolvida por psicólogos em Massachusetts, nos EUA, e em Waterloo, no Canadá, demonstrou que o preconceito racial, muitas vezes, está relacionado com a autoestima de quem o comete, funcionando como uma espécie de escudo protetor. E que, quanto mais positiva for a postura em relação a si próprio, menos chance alguém terá para desenvolver algum tipo de discriminação contra outras raças.

Outra pesquisa produzida na Universidade do Arizona, também nos EUA, comprovou a conexão direta entre racismo e insegurança emocional. Em outras palavras, atos de crueldade cometidos contra grupos de outras raças muitas vezes se originam de fragilidades psicológicas.

Contudo, apesar do preconceito racial ter um pé fincado no inconsciente, ele vem sendo percebido como um fenômeno social, e não biológico. Cada vez mais, especialistas convergem para a visão de que o racismo, na sua essência, é um conceito aprendido.

Na neurologia, por exemplo, existem estudos que buscam componentes cerebrais ligados ao racismo. Pesquisa recente desenvolvida na Universidade de Illinois mostrou que determinada região do cérebro relacionada a sensações de medo e ansiedade foi ativada quando pessoas adultas de uma raça se encontraram com outras de raças diferentes. Porém, descobriu-se que esta região não foi acionada quando a mesma pesquisa foi realizada com crianças. Desta forma, ficou evidenciado que o racismo é, de fato, aprendido ao longo da vida.

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A nossa capacidade de discernimento ajuda a orientar as nossas ações, escolhendo entre o certo e o errado. Entretanto, em nosso país, apesar de haver uma imensa dívida histórica com a raça negra, insistimos em negligenciá-la.  Até quando?

O sofrimento experimentado por certos povos, na maioria das vezes, restringe-se às próprias vítimas. Isto se deve aos vários tipos de distanciamento. Nesta semana, por exemplo, no Egito, quase quatro centenas de pessoas foram mortas por atentados. E, na Argentina, um submarino desapareceu sem deixar rastros. São dramas que acompanhamos com riqueza de detalhes. Mas a carga emocional acaba ficando limitada aos povos envolvidos. O distanciamento geográfico funciona, nestes casos,  como um filtro emocional, infelizmente.

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Imaginemos agora, por um instante apenas, o que realmente um homem livre deve ter sentido ao ser sequestrado em seu continente de origem, colocado num navio negreiro sob as piores condições humanas possíveis, e trazido à força para trabalhar como escravo para toda a sua vida. Isso aconteceu com cerca de 5 milhões de pessoas, que se tornaram nossos irmãos do passado. Contudo, diante desta tragédia local, um distanciamento temporal faz com que as nossas emoções sejam efetivamente neutralizadas.

Mas se o passado não mais pode ser remediado, como o preconceito racial ainda continua sendo alimentado nos dias de hoje? O país tem sim uma dívida histórica com a raça de origem africana. A celebração do Dia da Consciência Negra, que ocorreu nesta semana, e a existência de cotas raciais nas universidades, embora carecendo de aperfeiçoamento, são esforços importantes na busca de uma reparação secular.

Contudo, mais importante do que quaisquer reparações do passado, é necessário que percebamos o óbvio. O preconceito racial que as pessoas de raça branca têm herdado, geração após geração, é um legado maldito. E esta herança pode e deve ser decidida não mais ser repassada. Não há outra atitude digna que possa ser tomada pela sociedade.

A humanidade, embora tendo se desenvolvida sob a escuridão de sua própria cegueira moral, tem sido iluminada por alguns poucos porém brilhantes faróis. Gandhi, Martin Luther King ou Madre Teresa, em um nível; Buda ou São Francisco, em outro; inclusive Jesus; todos vieram dos quatro cantos do planeta. Graças às diferentes raças, o mundo ainda não se perdeu!

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Embora, saibamos de onde viemos, não temos a mínima noção para onde estamos indo. Se desejamos, verdadeiramente, seguir pelo caminho da moral e da dignidade, todas as amarras do preconceito racial deverão ser desatadas. As maiores e as menores. As explícitas e as implícitas. As conscientes e as inconscientes. Cada uma delas, amarra por amarra!

Ou o ser humano segue unido em sua caminhada, ou a sua divisão implicará na sua própria ruína. De fato, a diversidade de raças é uma das faces mais belas da natureza humana. Percebê-la não é apenas sinal de evolução. É fator essencial para a preservação de nossa própria espécie!

 

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6 comentários

  1. Questão complicada essa! Será que já evoluímos alguma coisa nesse século em relação a isso? Eu acho que a nova geração, os adultos de um futuro próximo já será uma geração muito mais consciente da diversidade racial.

  2. Sim Luiza. E essa é a principal atribuição do Estado. Atuar em favor da sociedade. Um Estado que deveria ser mínimo, para ser eficiente, e fazer bem feito o seu verdadeiro papel.

  3. Muito bom o texto. Gostei muito de ler. Ainda temos desigualdades estruturais em diversos aspectos sociais, implicando na questão de acessos e oportunidades. Desigualdades construídas historicamente e reproduzidas, muitas vezes sendo naturalizadas. A segregação racial no Brasil se mostra, em muitos casos, explícita, mas em muitos também é velada. Precisamos sim falar sempre sobre isso e combater por diversos meios. A política de cotas tem se mostrado uma ótima ação estatal na tentativa de minimizar essa segregação, mesmo com seus devidos problemas de aplicação e abrangência. A criminalização do racismo também, assim como o reconhecimento constitucional das terras remanescentes de quilombolas, dentre outros. Acho que estamos longe de vivenciar uma sociedade igualitária e livre, sendo, por isso, papel do Estado atuar para chegarmos cada vez mais perto. A política de cotas está no caminho.

  4. Isso Cláudia. Sem privilégios ou desigualdades, como vc disse. A questão é que a esmagadora maioria das pessoas da raça negra não tem oportunidades. De cada 3 pessoas moradoras das chamadas favelas, 2 são negras. E o sistema de cotas, bem ou mal, é uma forma de se corrigir esta distorção com mais brevidade. Se 130 anos não foram suficientes, algo precisa ser feito. Mas realmente é um ponto muito polêmico.
    E viva a diferença de opinião. É dela que nasce a luz!
    Falando em polêmica, o assunto do próximo artigo é umbilicalmente ligado a ela.

  5. Todo preconceito é injusto.
    Procuro livrar-me de todos e preocupo-me em não passá-los para meus descendentes. Nisto concordamos. Quanto ao sentimento de dívida em relação à escravidão e ao sistema de cotas, não compartilho com a sua opinião. Nosso futuro como país justo ê ter leis iguais para todos, sem privilégios ou desigualdades. Sem dúvida seu texto fala sobre um assunto polêmico e que precisa estar sempre em debate.

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