A mentira, do hábito ao dolo!

Ricardo V. Malafaia     10/dez/2017                                                                                                                                

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Vivemos tempos difíceis. Tempos para olharmos para dentro de nossas entranhas e de nossa sociedade. Tempos para entendermos os motivos a partir dos quais o errado se deu. Tempos para cultivarmos a humildade. Tempos para elaborarmos autocríticas. Tempos para fazermos com que a sabedoria floresça. Tempos para reconhecermos que hábitos precisam ser definitivamente repensados.

Ao longo de nossas vidas, procuramos respostas a diversas questões. De onde viemos? Para onde vamos? Se estamos sós? O que tem após a morte? De fato, o que buscamos nada mais é do que a verdade. Mas, se a verdade é uma riqueza a qual perseguimos, por que então a mentira, sua maior vilã, caminha ao nosso lado com tanta intimidade e desembaraço?

Dia após dia, fazem desaguar em nossos ouvidos uma enxurrada de mentiras proferidas por dezenas de políticos e funcionários públicos acusados de corrupção, prevaricação e outros crimes. Apesar das evidências que transbordam quaisquer tentativas de defesas, não cansam de jurar inocência. E, cínicos, acusam de perseguição quem os investiga, e ainda procuram se desvincular de quem já foi condenado.

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Nas veias destes investigados, não corre sangue. Definitivamente, não corre! Por certo, flui outra substância. Talvez, quem sabe, algum alquimista tenha desenvolvido, na Idade Média, mesmo sem querer, um quinto tipo sanguíneo, cuja essência promove a capacidade de ludibriar e manipular sem o menor pudor. São mentirosos contumazes, que compõem a face mais baixa e degradante da nossa sociedade.

Atrelados a eles, estão os seus ostentosos advogados criminalistas. Como os pássaros-palitos que se alimentam de restos de comida e de vermes presos aos dentes dos crocodilos africanos, muitos destes profissionais fazem da mentira um tapete vermelho hollywoodiano, através da qual, diante das câmaras e holofotes, procuram distorcer fatos e vitimizar suas fontes pagadoras de capital sabidamente escuso. Às favas com a ética. Mentir e enriquecer, sempre! Em nome da Justiça, claro.

Menos mal que estes agentes das organizações criminosas já estão adequadamente demonizados pela parte esclarecida da sociedade. Contudo, a mentira estará apenas restrita àqueles malditos círculos? Ou, de certa forma, em alguns momentos dos nossos cotidianos, apoiamo-nos na bengala da inverdade para solucionar eventuais “inocentes” contratempos?

A dissimulação é uma capacidade intrínseca ao ser vivo. E o mimetismo é um de seus exemplos mais conhecidos. Bem explicada pela teoria evolutiva, toda esta capacidade é direcionada apenas à sobrevivência e à reprodução. Diferentemente, o homem é o único ser capaz de falsear racionalmente a verdade para obter outros tipos de vantagens.

Dependendo da sua finalidade, a mentira pode ser mais ou menos condenável. E até compreensível, quando usada para proteção de um ente querido, por exemplo. Entretanto, a falsidade, quando utilizada para conseguir algum tipo de vantagem, é uma prática condenável.

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De fato, quanto mais individualista for a sua intenção, quanto mais distante dos valores morais se colocar, quanto mais prejuízo a terceiros causar, mais perversa uma mentira pode se tornar. O homem tem o seu livre arbítrio. E quando decide enganar, realmente o faz de forma consciente. A uns, segue-se o remorso, A outros, o sentimento cíclico da impunidade.

No Brasil, ao contrário de outros países, a mentira é muito mais tolerada. E até estimulada. Há pouco tempo, por exemplo, o jogador Rodrigo Caio do São Paulo Futebol Clube, agindo com um fair play pouco comum em nossos campos, acusou a própria falta, fazendo com que o árbitro retirasse o cartão amarelo dado ao adversário corintiano. Posteriormente, entre algumas manifestações de apoio, o jogador recebeu inúmeras críticas, inclusive da própria imprensa especializada. Resumindo, foi ampla e publicamente criticado apenas por falar a verdade!

No dia a dia, pequenas mentiras são ditas, muitas vezes, com bons intuitos. Seja para afastar alguém de algum risco ou alguma tristeza, seja para evitar uma separação. Ou para impedir algum tipo de constrangimento. Ou para remover a possibilidade de conflitos. Ou, até, por questões de autoestima. Consideradas por alguns como “mentiras do bem”, são muito menos condenáveis dadas as suas boas intenções.

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Não obstante, estamos numa era onde o perigoso relativismo tudo justifica. Devemos, por isso, tomar muito cuidado. E perceber que as nossas responsabilidades não devem ser camufladas pelas teorias contemporâneas da relatividade. Embora menos cômodo e mais árduo, agir com coragem para encarar as nossas fraquezas é bem mais efetivo e verdadeiro. Como é, também, procurar entender a razão pela qual fugimos corriqueiramente do mundo real.

Será ele duro demais para que o encaremos o tempo todo? Ou será que as nossas deficiências, que nos tornam vulneráveis e despreparados, constituem o principal motivo das eventuais pequenas fugas da verdade?

Os poucos grandes sábios que a humanidade já produziu jamais lançariam mão da mentira para resolver quaisquer questões. Utilizariam, sem dúvida, suas próprias clarezas, independências e coerências para encontrar os melhores caminhos. Por isso tornaram-se pessoas especiais, e que devem seguir nos inspirando.

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Como indivíduos e como cidadãos não podemos nos afastar da estrada da verdade, pois ela é segura e reta. E quando eventualmente dela nos distanciarmos, saibamos que foi menos pela contingência da vida e mais pela própria falibilidade.

A nossa sociedade precisa ser repensada. Os seus valores estão bastante corroídos. Nesta improrrogável mudança, a mentira não deve ter assento. Em qualquer tempo, em qualquer lugar, o certo será o certo, queiramos ou não. Eventuais diferentes perspectivas serão frutos apenas de nossa frágil condição humana. Se o medo poderá justificar que se furte a verdade, a coragem, a humildade e o desprendimento poderão trazê-la de volta. E em segurança!

 

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8 comentários

  1. Leio, penso, reflito, mas não encontro palavras que possam fazer justiça aos seus filosóficos artigos, a cada semana sempre melhores…
    Parabéns, obrigado e um forte abraço!

  2. Pois é, Cláudia. Falar a verdade nem sempre é tarefa fácil. Mas, mesmo em determinadas situações, com educação e habilidade, a verdade deve ser dita. É um exercício de princípios, que necessita de coragem e desprendimento. Obrigado!

  3. Regina, repassar valores aos nossos filhos constitui na mais importante missão. Contudo, vivemos em sociedade carente de valores. Todo esforço que empreendermos na luta pela verdade propagar-se-á em todas as direções. Lembremo-nos de que o exemplo arrasta. Obrigado.

  4. Verônica, seu comentário foi perfeito. Irretocável. E sim, a verdade é um caminho solitário. Assim como outros caminhos também são. Mas sobre eles, falaremos depois. Parabéns!!!

  5. O ser humano mente. Isto é fato. Mente por vaidade, em defesa própria, por hábito ou por questão de sobrevivência. A diferença está no caráter, na formação e na educação da pessoa. Elas podem ser”mentirinhas inofensivas” ou virem carregadas de maldade. Podem “colorir”um pouco a vida ou prejudicar uma ou muitas pessoas. Depende de quem as fala, suas intenções e consequências. Acredito que existam mentiras que são até para o bem, mas não há dúvida que a verdade é sempre a melhor opção. Na minha família, sempre ouvi dizer que a mentira tem perna curta e não vai muito longe; que para se explicar uma mentira temos que dizer outra; que mentir dá muito trabalho e por aí vai…O hábito de falar a verdade e ser sincero vem junto com a prática das virtudes, em um exercício constante por ser muitas vezes difícil e exigir determinação e coragem. Lindo texto. Abraço. Ob. Não é mentira!

  6. Acredito que a verdade esteja diretamente vinculada a princípios e valores que nos ensinam desde tenra idade. Infelizmente nossa sociedade tem valores duvidosos e isto faz com que a mentira e simulação se tornem prática comum. Precisamos modificar nossos valores repassando-os desde cedo aos nossos filhos. Esse é o caminho. Não vejo outra solução.

  7. A verdade é um caminho solitário . É preciso muita força de caráter e princípios sólidos para que sejamos corretos e verdadeiros. Penso que nós , humanos , vivemos de forma egoista e isso nos leva a atitudes omissivas ou subversivas em nome dos nossos interesses e de proteção de nossos entes familiares . O caminho do bem e da verdade é reto e seguro mas nem sempre fácil de ser Trilhado. É preciso voltarmos os olhos para a coletividade e o bem comum como forma de atingirmos uma sociedade mais digna e sustentável .

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