Uma “Execução” que expõe diferentes faces de uma sociedade

Ricardo V. Malafaia     18/mar/2018

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Nesta semana, o Brasil foi varrido por fortes sentimentos provocados pela covarde execução da vereadora carioca do PSOL, Marielle Franco. Em muitas cidades do país, e do exterior, manifestações espontâneas reagiram ao assassinato dessa ativista social. Contudo, apesar da brutalidade do crime, as múltiplas reações seguiram caminhos inteiramente diferentes.

E por que a repercussão a respeito de um crime tão bárbaro passou longe da unanimidade? Por que diferentes agentes têm reivindicado para si uma parte da vitimização? Por que especificamente essa morte, dentre tantas outras milhares ocorridas em função da mesma violência no Estado do Rio, causou tamanha comoção?

Possivelmente, uma parte destas pessoas que se juntou às manifestações em solidariedade à vereadora assassinada assim procedeu por se identificar, principalmente, com as causas defendidas por ela. É como disse uma universitária prestando homenagem após o crime: “Tenho a mesma atividade. Podia ter sido eu”. Neste aspecto, percebe-se uma comoção maior a partir da percepção a respeito do vínculo que unia vítima e manifestantes: o ativismo social. Que, para deixar claro, é uma reação completamente natural. A solidariedade entre pares acontece em todas as profissões e atividades.

A vida desta vereadora não é mais, nem menos, importante do que de todas as outras vítimas da violência. Entretanto, a repercussão deste crime, brutal como tantos outros, deveu-se a uma singularidade. Uma organização criminosa planejou, detalhadamente, a execução de uma ativista, cuja liderança social estaria contrariando os seus interesses. Ou, teve a intenção de tumultuar, devido ao grande impacto que uma execução dessas certamente desencadearia, o processo de Intervenção Militar na segurança pública do Estado.

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Seja devido a um ou a outro motivo, a sociedade está, a partir deste momento, diante de um novo degrau na escalada da violência: o assassinato político. Se o crime organizado quis dar um recado aos militares, a sua reação precisa ser contundente. De fato, uma afronta à Democracia não pode ficar impune. Neste momento, os dados estão sobre a mesa. Por ora, a balança de forças pende para o lado dos bandidos. Cabe ao comando militar restabelecer o seu equilíbrio, demonstrando, de forma clara, todo o poder que o Estado detém.

Previsivelmente, muitos atores procuram surfar na emoção provocada por este crime. Mesclando-se com as bandeiras da vereadora, políticos e partidos se vitimizam, buscando confundir a opinião pública. Em ano eleitoral, quem não costuma primar pela ética não se furtará a altear o seu capital político, alavancando-o a partir de um drama alheio!

Frases, pronunciadas após a morte da vereadora, como: “Quem puxa o gatilho são os que atacam defensores dos direitos humanos e fomentam o ódio” ou “A escalada de autoritarismo no país implicou no assassinato de nossa companheira” têm a clara intenção de colocar a culpa desta execução na conta de quem pensa politicamente diferente. Declarações oportunistas e irresponsáveis de alguns parlamentares só ajudam a promover a perigosa divisão de uma nação.

Essa divisão entre brasileiros que enxergam a situação do país sob ângulos bem diferentes necessitaria que autênticas lideranças priorizassem a busca de uma unidade nacional. Mas, na verdade, tal unidade não é interessante para as lideranças partidárias. Através desta cisão político-ideológica, conseguem manter-se em condições privilegiadas, favorecendo-se das benesses da máquina pública.

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Assim, em decorrência desta planejada divisão ideológica, os excessos são cometidos por ambos os lados. E, aproveitando-se de um ambiente conflituoso, os extremistas, que normalmente mantém-se camuflados, enchem-se de coragem, e saem despejando ódio, produzindo fake news, ou chegando ao ponto de comemorar a morte da vereadora, escorados em suas convicções políticas.

Apesar de quase metade dos votos que a elegeram ter vindo, segundo mapeamento divulgado, de bairros de classe média alta da cidade, Marielle, nascida na favela da Maré, era uma ativista social atuante, corajosa, e que lutava por suas bandeiras. Concordando-se ou não com os seus pontos de vista, atributos como idealismo, coragem e preocupação com o semelhante são virtudes que, de tão escassas hoje em dia, precisam se reconhecidas.

Marielle, ao contrário do que alguns intencionalmente procuram fazer crer, não foi assassinada por ser mulher, negra ou homossexual. Ela foi executada em função de suas denúncias e de seu ativismo social, que contrariavam interesses de grupos criminosos. Efetivamente, mais de três dezenas de vereadores, prefeitos e ex-prefeitos foram assassinados no país nos últimos dois anos. Contudo, as condições nas quais o Rio de Janeiro, hoje, encontra-se fizeram com que este crime ganhasse repercussão mundial.

Igualdade racial, valorização da mulher e combate à pobreza eram justas bandeiras pelas quais Marielle lutava. Todavia, a vereadora também mantinha posições bastante controversas a respeito do combate à criminalidade, da liberação de drogas, e, mais recentemente, manifestava a sua contrariedade com a decretação da Intervenção na segurança do Estado.

Por ironia, esta mesma Intervenção foi, verdadeiramente, instalada para combater a desordem generalizada que se verifica no aparato de segurança pública. Exatamente como afirmou Fernando Gabeira: “A cidade cada vez mais quer a Intervenção. Estou vendo algumas pessoas se manifestando contra. Ora, o assassinato da Marielle é a demonstração mais dramática da necessidade dessa ação”.

A execução de Marielle expôs, de forma clara, todas as faces de uma mesma sociedade, fruto de um radicalismo que costuma brotar em situações de polaridade. Uma pena! Afinal, a nossa nação foi sendo, ano a ano, de forma intencional, político-ideologicamente apartada. E continua sendo!

Torre de Babel

Em virtude deste fosso escavado por mãos inconsequentes, continuamos muito longe de uma união nacional que permitiria ingressar mais brevemente numa era de progresso sustentado. Lamentavelmente, hoje, vivemos numa Torre de Babel ideológica. Falamos a mesma língua, não a mesma linguagem!

 

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8 comentários

  1. Luiza, abusos cometidos por membros do Estado, de fato, precisam ser coibidos. Reconheço que é complicado fazer análise mais detalhada, quando não se é morador de comunidade carente. Entendo seu ponto de vista. Contudo, hoje, esses cidadãos já são submetidos diariamente ao terror, imposto por traficantes ou milicianos. Isso precisa ter fim. Além do que, no restante da cidade, outros milhões de moradores também clamam por segurança. Como está, não pode continuar. E isto também é um fato!

  2. Guilherme, chegou o momento para que as velhas ideologias pendurem as chuteiras.

  3. Eu votei na Marielle, fui em várias rodas de conversa que ela participou e sempre acompanhava suas atividades políticas. Não a conheci pessoalmente, mas posso afirmar que foi uma representante política que de fato me representou. Ela foi executada, totalmente diferente de casos de assassinatos causados pela violência do Rio. Sua vida valeu mais que outras pessoas que morrem todos os dias no Rio? Óbvio que não, mas são casos completamente diferentes. Acho que não é tão difícil de entender…
    Marielle vinha denunciando diversos casos de abusos policiais e militares, o que realmente ocorre, questionando abordagens da intervenção federal no Rio, o que eu também questiono e critico. É muito fácil defender uma ação quando você tem a certeza que militar ou policial não vai meter o pé e arrombar a sua porta, te levar pra delegacia abusivamente, desrespeitar seus filhos e as mulheres, etc etc. O difícil é vc questionar tudo isso tendo o privilégio de ter uma realidade completamente diferente.. Pois é. Marielle denunciava tudo isso. Antes de ser vereadora, trabalhava na comissão dos direitos humanos da Alerj, onde prestava assistência às famílias de policiais vítimas de assassinato no Estado, dentre outras atividades.
    E eu ainda tive a infelicidade de ler textos desumanos e mentirosos sobre a vereadora. Que tipo de ser “humano” faz isso? Enfim…que Deus tenha piedade.
    Marielle foi executada, mas sua militância e luta política não. Mais vivos do que nunca. Ainda bem.
    Ah, e não se pode confundir aproveitamento político com militância política. A esquerda milita. Há aproveitores? Claro, como em todos os casos. Mas um bom pensamento crítico tem que saber diferenciar a militância política do aproveitamento político, conforme os diferentes contextos. Aliás, pensamento crítico é a nossa melhor ferramenta.

  4. Mais um crime na nossa cidade. Um crime tão grave quanto o do pai que foi morto na frente do filho, da médica assassinada na linha vermelha. Todos gerados pela violência desenfreada na nossa cidade. Uma pessoa não vale mais que outra. Temos que lamentar a perda de todas as vidas.

  5. Por ser polêmico e com forte divergência de opiniões o assunto precisa e merece ter essa abordagem cautelosa, equilibrada e de bom senso, ou seja, responsável!
    Um texto desapaixonado e isento de ideias/conceitos distorcidos.
    Abraço.

  6. Tem muita gente querendo tirar proveito do assassinato dela. Um absurdo! Temos que lamentar esse assassinato sim, bem como as outras dezenas de assassinatos de políticos que não tiveram a mesma repercussão e as outras milhares de pessoas de bem que perdem suas vidas por causa dessa violência urbana.
    Necessitamos de um basta nisso tudo e de paz.
    Queremos segurança para viver com nossas famílias!!!
    Como ainda tem gente que é contra a intervenção que veio para tentar mais alguma coisa em prol da segurança dos cariocas???
    Parabéns pelo texto isento de ideologias políticas!!!

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