Valores, opiniões e preconceitos

Ricardo V. Malafaia     13/mai/2018

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Mundo complexo, ideias difusas. E neste vai e vem de múltiplas perspectivas e inconfessáveis interesses, fomos perdendo a capacidade para diferenciar valores de opiniões e de preconceitos. Apesar de todas as transformações que o mundo sofreu nestes últimos séculos, o ser humano não conseguiu libertar-se de seus medos e limitações. E igualmente de seus anseios. Assim, o hiato temporal criado entre ambiente e personagem fez com que a sociedade perdesse a habilidade de interpretar corretamente o seu próprio momento.

Em virtude desta perda sociocognitiva, as verdades foram cedendo lugar ao relativismo. E a essência, perdendo espaço para a conveniência. Neste novo formato, onde antigas referências perdem importância a cada dia, a sociedade vai caminhando meio sem saber para onde.

Desta forma, neste vagueio sem freio, com os olhos vendados como numa cabra-cega, preconceitos passam-se por opiniões. E opiniões disfarçam-se de valores. Como a arrogância é a mãe da convicção, o prazer de hoje toma o lugar do saber de ontem. E o egoísmo de agora assalta o conviver de amanhã.

Num mundo polarizado como o nosso, as apostas têm sido feitas nas radicalizações quando o bom investimento seria concentrar as fichas na harmonia. Colocar-se no lugar do outro deveria ser tão natural quanto dialogar. Mas não é. E por quê? Porque o egoísmo, a soberba e a tolice estão enraizados em nosso inconsciente. Simples assim. E por isso, a desordem se estabelece, tumultuando a relação humana. E confundindo valores, opiniões e preconceitos.

Ao visitarmos determinado setor de uma empresa e depararmo-nos com chefes masculinos comandando homens e mulheres, poderemos imaginar que suas capacidades foram determinantes na opinião de seus superiores na ocasião de suas promoções. Mas se todo o restante da empresa tiver a mesma configuração, provavelmente estaremos diante de um caso de preconceito, não de opinião.

Se um professor manifestar aos seus colegas e alunos, em palestra numa universidade pública, o seu apoio a um candidato de Centro ou de Direita, provavelmente não conseguirá concluir o seu próprio raciocínio, devido ao excesso de vaias que receberá. Agindo assim, a plateia não estará externando a sua opinião. Estará comportando-se de forma preconceituosa contra quem pensa diferente.

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É natural que um seguidor de determinada religião leve a outros os ensinamentos que professa. Afinal, desejará para terceiros os mesmos benefícios que a sua fé lhe traz. Jesus disse aos seus discípulos: “Ide e pregai”. Mas quando a religião de alguém vira instrumento de persuasão ou afastamento, aquela fé que deveria constituir-se no seu mais profundo valor deteriora-se, transformando-se num reles preconceito.

Quando pais desejam que seus filhos não sejam submetidos à política de gêneros, reservam-se ao natural direito para educá-los conforme os seus próprios valores. Isso é o caso de uma opinião baseada em valores. Mas quando ensinam aos seus filhos qualquer tipo de discriminação, definitivamente estarão transformando-os em pessoas intolerantes. Nesta situação, desenvolve-se uma opinião apoiada apenas em preconceito.

São inúmeros os tipos de discriminação: racial, social, cultural, linguística, estética, sexual e religiosa. Na verdade, a origem de todas elas nasce das mesmas raízes. Do medo, da ignorância e da cultura familiar ou da comunidade da qual pertence. Por isso é tão importante o esclarecimento, que atua como remédio único e poderoso para combater estas três raízes que deflagram o preconceito.

Contudo muitos agentes, na ânsia de esclarecer, acabam violando o direito daqueles com quem se deseja comunicar. Se a ideia inicial era resguardar os direitos de alguns grupos numericamente inferiores, ou politicamente menos representados, a falta de senso acaba produzindo feridas em valores fundamentais de uma eventual maioria. Na verdade, independente da proporcionalidade, não se pode pregar o respeito para uns desrespeitando outros. Respeito não é cobertor curto. Curto é o tamanho da sabedoria atual.

O mundo muda, e o ser humano também. Em virtude da velocidade com que quase tudo se altera hoje em dia, ele sabe que precisará integrar-se rapidamente. Adaptável, peça a ele quase tudo, menos uma coisa. Que abra mão de seus próprios valores fundamentais, quem de fato os têm. O combate ao preconceito e a preocupação com os valores universais não são excludentes. Pelo contrário, são complementares. E por isso devem atuar em sintonia.

Ao longo da história humana, muita coisa de ruim já foi feita. Mas muita coisa boa também foi. E saberes humanos acumularam-se, não apenas científicos. Por que então desperdiçar tantos aprendizados, alcançados através de muito sofrimento? Definitivamente as novas gerações não devem rejeitar a sabedoria duramente acumulada. Desejar que se reinicie do zero a caminhada humana para o autoconhecimento é como dispensar a experiência dos avós nos primeiros anos de vida de um primogênito. Não faz sentido!

Opinião é algo que se acredita verdadeiro. Baseada em fatos, em algum conhecimento ou em valores, norteia as ações do dia a dia. Na verdade, opinar é exercer a subjetividade. E para conviver em harmonia, a pluralidade de ideias deve prevalecer sobre a unicidade. Saber divergir é prova de civilidade. E de amadurecimento.

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A sociedade atual não pode abrir mão de sua ética e de seus valores. Caminhar sem conhecer o seu porto seguro moral é não saber para onde rumar. Nem de que forma proceder. É como encontrar-se no deserto ou em alto mar sem bússola ou GPS. Sem referências, perdidos continuaremos.

Não pode haver dúvida entre valores e preconceitos. Enquanto o primeiro orienta, une, constrói, protege, soma e acolhe, o segundo faz, sem perdão, exatamente o oposto. Precisamos estar atentos e não permitir que a modernidade possa seduzir-nos, invertendo a lógica franciscana, e levando dúvidas onde havia fé. Erros onde havia verdade. Trevas onde havia luz! Ou melhor, onde ainda há um pouco. Ainda!

 

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Um comentário

  1. Brilhante colocação
    Podemos ter nossos conceitos, mas não nos dá o direito de ser preconceituosos

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