As diferentes lições de uma paralisação do país!

Ricardo V. Malafaia     31/mai/2018

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O Brasil ferveu! E a demora para entender os fatos ocorreu pela existência não apenas de um único cenário, mas de vários que se desenrolaram de forma simultânea, nos quais diversos agentes atuaram em mais de um deles. De qualquer maneira o certo é que, com o lento encerramento desta paralisação dos caminhoneiros, nada mais será como antes.

Depois de muitas idas e vindas, essa greve, insuflada por empresários do setor de transporte, fez com que o governo federal ajoelhasse e atendesse por completo às suas reivindicações. Não obstante a meta inicial alcançada, a paralisação continuou, transformando o locaute das transportadoras e a greve dos caminhoneiros em mobilização política de um segmento legítimo e importante da população.

A sociedade, na verdade, atuou e atua como agente que interpreta vários papéis. Por um lado, diante do alongamento da duração em virtude da mutação sindical-política da paralisação, a sociedade foi de solidária com a causa para sequestrada no seu efeito. E por outro, em função dos objetivos traçados, a mesma foi de futura financiadora das reivindicações atendidas para parceira na luta contra o criminoso e perpétuo establishment político e econômico.

Comprometida não se sabe lá com que e com quem, a grande mídia decidiu rasgar um dos mais básicos princípios de uma imprensa livre e democrática. Enquanto o apoio aos caminhoneiros, por parte das comunidades vizinhas aos pontos de paralisação, emocionava o país, as grandes redes de TV aberta e fechada concentraram-se apenas em reportagens sobre as consequências do desabastecimento.

Embora estas consequências tenham sido de fato muito preocupantes, não compuseram a totalidade do cenário. Quando grandes jornais não informam com transparência, direcionando as matérias a serem veiculadas, impedem que o público faça uma análise com propriedade. Mas isso teve um preço. Esqueceram que as redes sociais iriam desmenti-las. E a julgar pelas reações observadas, esta estratégia fez com que a sua credibilidade despencasse. Valeu a pena?

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Aqueles que ficaram inteiramente calados durante todo este processo foram os partidos de esquerda. Responsáveis pela destruição da Petrobras, pela aniquilação das contas públicas, pela ampliação da corrupção generalizada e pela disseminação do Marxismo de forma capilar em diversos segmentos da sociedade, Lula e o PT sempre acreditaram que teriam respaldo eterno das pessoas mais simples. Deram com os burros n’água!

Um dos saldos mais interessantes desta paralisação foi assistir aos mais de um milhão de caminhoneiros e às centenas de populações simples que margeiam as rodovias país afora, juntos, rejeitando de forma veemente o petismo e a Esquerda. O grito político mais ouvido nesta paralisação foi: “A nossa bandeira jamais será vermelha”! Um brado verde e amarelo, autêntico e espontâneo, que ecoou em todos os cantos do país e que jamais poderá ser ignorado e esquecido. E não será!

Os militares tiveram e continuam tendo um comportamento exemplar ao longo de todo o processo. Primeiramente, ao receberem uma ordem direta presidencial para intervir na paralisação, tomaram o cuidado para que não houvesse confrontos. E ao serem instigados pelos movimentos intervencionistas, que não são poucos, não se deixaram seduzir. Sabem que o momento de agora é completamente diferente daquele que desencadeou a Revolução Militar em 64.

Os intervencionistas perceberam enfim que os militares não farão qualquer movimento neste sentido. Naquela época, a população maciçamente clamou nas ruas pela Revolução. A grande impressa declaradamente a apoiava. Em época de Guerra Fria, o mundo estava polarizado, preocupando-se com a expansão do comunismo além-mar. Havia um inimigo externo. O caso agora é diferente. Temos questões gravíssimas, mas somente internas a resolver.

Esta paralisação acertou também onde não mirou. Na cidade do Rio de Janeiro, por exemplo, a escassez de alimentos, produtos básicos e combustíveis também veio acompanhada por outro fenômeno: a queda vertiginosa e evidente de roubos de cargas, mas também de tiroteios, de assassinatos e de vendas de drogas em bocas de fumo. Fica aí um dado significativo para o aperfeiçoamento do combate ao crime organizado no Estado do Rio. Se pensarem direito, há saída!

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Contudo o saldo mais importante desta paralisação é outro. Precisamos primeiro lembrar-nos de que temos um dos 10 maiores PIB’s do mundo, ao lado de outros como o do Itália, Canadá e França. E de que, mesmo diante de seguidas péssimas administrações, possuímos um PIB correspondente a mais da metade daquele apresentado pela poderosa Alemanha. Então como ainda podemos assistir a dezenas de milhões de brasileiros vivendo na pobreza, sem educação e sem saúde? Para onde está indo toda esta fortuna?

Verdadeiramente, as oligarquias chupam o sangue do país há muito tempo. Desde a redemocratização nos anos 80, o povo transfere a sua riqueza para elas, com a cumplicidade criminosa de todos os partidos. É bancada da bala, da bola, ruralista, dos grandes bancos, das empreiteiras, sindical e até, pasmem, dos parentes de políticos. São muitos interesses oligárquicos. Sem falar nas inúmeras oligarquias regionais encontradas nos 26 Estados, no Distrito Federal e nos mais de 5.500 municípios. Por isso chegamos ao fundo do poço! Não é à toa que a violência e a corrupção estouraram todos os níveis.

Apesar de tudo, segundo estudos internacionais, somos um gigante que ruma para ser a quinta maior economia em 2050. Mas se esse país agigantou-se quanto ao tamanho de sua economia, as oligarquias e a classe política conseguiram, nestas 3 últimas décadas, entorpecer o seu cérebro, criando um sistema de castas.

Contudo a nação começa a mudar, pois a conscientização política vem ganhando espaço junto aos cidadãos. E as redes sociais, apesar de alguns maus usos, têm permitido que estes mesmos brasileiros conectem-se entre si de maneira cidadã. Esta paralisação que se tornou em algum momento um protesto cívico mostrou que o país não mais pertence aos poderosos. O gigante está acordando. Se os cidadãos são os seus neurônios, as redes sociais são as sinapses. Este processo não tem mais volta. E este é o mais importante saldo destes dias.

O que faz as pessoas desejarem a intervenção militar não é a existência dos criminosos. Eles sempre existiram e existirão. Na verdade o que revolta é a percepção da impunidade. O que revolta não é descobrir que o Temer é ladrão. É saber que ele comprou os deputados em duas ocasiões conseguindo manter-se no poder. É ver que o Aécio continua livre. É assistir o Sr. Gilmar Mendes soltando descaradamente dezenas de corruptos. Se o crime enoja, a impunidade revolta.

O atual governo acabou. Tirá-lo agora não teria efeito prático nenhum, pois estamos muito perto das eleições. Muito melhor é concentrarmo-nos nelas. É espalhar pelo país a ideia de que não podemos eleger ninguém que esteja sendo investigado por corrupção. Nem eleger quaisquer parentes seus. Atualmente há vários aplicativos ao alcance de todos que podem ser consultados. Se não fizermos a nossa parte, muitos corruptos continuarão dando as cartas.

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Segundo o Datafolha, apesar de toda a dificuldade enfrentada, 87% da população foram favoráveis à paralisação dos caminhoneiros. Isso quer dizer que o nível de revolta com a impunidade atingiu o limite. Então chegou o momento de transformar a revolta em algo prático!

Que o STF seja pressionado ao extremo para trabalhar de maneira intensa e punir exemplarmente, como a 1ª instância tem feito! E que nós, sociedade, tenhamos vergonha na cara e não elejamos ninguém que não mereça. Para esta eleição, nossa indiferença ou descrença compõem a grande aposta das velhas e novas Oligarquias que riem todos os dias de cada um de nós!

 

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6 comentários

  1. Excelentes observações. Discordo apenas de que conseguiremos solução através de eleições, por alguns motivos, descritos abaixo: dos 513 deputados eleitos nas últimas eleições, apenas 28 receberam votos diretos, os demais foram a reboque do voto de legenda e quociente eleitoral. Ainda temos as urnas eletrônicas que sinalizam com fortes indícios de fraude. Além de que, mesmo que haja votos impressos (via urnas eletrônicas), temos informacoes balizadas que pode haver fraude. O STF tb. tem se mostrado nada confiável. Prefiro evitar intervenção militar, mas entendo que o sistema é viciado, o eleitor perderá de qualquer forma, nao vislumbro, infelizmente, outro caminho.

  2. Ricardo!
    Mais um excelente texto!
    Diz tudo o que a grande maioria da população pensa à respeito dos momentos que estamos vivendo…
    PARABÉNS!!!

  3. Excelente texto, esclarecedor. Sempre bom ler artigos que facilitam o entendimento sobre a nossa realidade atual.

  4. Parabéns! Suas reflexões sempre bem pensadas e construídas em cima das mazelas cotidianas de nossa pobre rica Nação.

  5. Excelente artigo, com observações lúcidas e corretas sobre a situação que ora vivemos e as causas que levaram ao atual descalabro…
    Parabéns, Ricardo!

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