Perdão, saúde e paz!

Ricardo V. Malafaia     30/dezembro/2018

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Vestir branco na virada do ano virou tradição faz tempo. E esse brinde à paz, mais do que um desejo, traduz uma real esperança. Contudo melhor seria se não apenas “vestíssemos a paz” por algumas horas, mas que também a introduzíssemos, de forma indelével, no lugar mais profundo de nossos corações. Mas como duas coisas não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo, para a paz entrar, algo terá que ir embora.

Na verdade, a busca pela paz é formada por diferentes processos. Alguns passam pela satisfação das necessidades mais básicas como saúde, segurança e sustento. Outros compõem uma busca pela paz interior, seja através de uma expansão da mente ou do próprio espírito. E há aqueles processos que buscam harmonizar a convivência entre amigos e familiares.

Embora as buscas pela paz interior e pela boa convivência com o próximo tenham naturezas diferentes, estão mais ligadas entre si do que se imagina.  Verdadeiramente, um convívio harmônico depende mais da forma como trabalham as suas próprias fraquezas do que de quaisquer outros fatores.

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Imaginemos um labirinto. Na verdade, imaginemos uma infinidade deles, todos diferentes entre si. Agora coloquemos cada um destes no interior de cada indivíduo. Preenchemos então cada qual com uma variedade enorme de experiências pessoais, cada uma delas percebida conforme a personalidade e a realidade de cada um. Compreenderam?

Quando duas pessoas relacionam-se, dois labirintos completamente distintos, carregados de algumas virtudes e de muitas fraquezas, passam a conviver entre si. Diante desta complexidade não é difícil perceber que as dificuldades de relacionamento estão mais ligadas ao nosso interior do que aos detalhes objetivos do dia a dia. Conviver em harmonia é, no fim das contas, exercer a subjetividade com mais humildade e tolerância!

Bastam palavras mal colocadas, gestos mal pensados ou análises mal formuladas para que aquelas fraquezas que carregamos venham à tona com todo vigor! Em qualquer convívio não há encaixe perfeito. Afinal, há muitas pontas em cada um de nós. E quando nos relacionamos, essas pontas incomodam. E, com alguma frequência, causam ferimentos.

Sendo assim, só há dois caminhos a trilhar. Ou não se convive, e paga-se um preço caro, individual e coletivo, em função desta escolha. Ou busca-se o caminho da concórdia. Mas para seguir tal direção, esvaziar o coração de certas impurezas que ocasionalmente se acumulam é ponto de partida, e não de chegada.

Quando se opta pelo afastamento, o preço a pagar é alto e doloroso. Regida pela lei da oferta e procura, a moeda em jogo é extremamente valorizada, pois é a mais escassa entre todas. A moeda em questão é o próprio tempo. A única entre todas que não se recupera jamais!

No entanto, quando se escolhe o caminho do encontro, as mágoas são as bolas da vez. De fato, são ferimentos causados por aquelas pontas. Aquelas mesmas que compõem o nosso labirinto interior. Aquele mesmo, carregado de algumas virtudes e de muitas fraquezas. Verdadeiramente, há muitas maneiras para se encher o coração de mágoas. Mas há apenas uma para esvaziá-lo: o sincero, autêntico e singelo perdão!

Como inspiração, devemos lembrar-nos de Santo Agostinho que afirmava que a paz é continuamente ameaçada pelas paixões desordenadas e desejos mesquinhos. E que também deixava claro que o amor próprio impede a concórdia, pois leva os indivíduos a caminharem pela via do individualismo e do egocentrismo.

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Parceiros na discórdia, individualismo e egocentrismo invariavelmente fazem com que cada um de nós enxergue quaisquer circunstâncias que nos cercam basicamente através de nossas próprias perspectivas. E esse fenômeno torna-se extensivo aos mais íntimos, pois, de tão próximos, já se acostumaram com as nossas pontas, comprometendo assim a sua isenção. Como consequência, ao as relativizarem, adormecem o álibi que justificaria a mágoa por nós causada, e ainda comprometem a profundidade do nosso próprio arrependimento.

Se mágoa há, motivo houve. Se o relativizar, incorrerá num novo erro, pois somente este conhece a intensidade da dor sofrida. Precisa de tempo, cada qual com o seu! Por outro lado, se mágoa aquele causou, motivo anterior deve também ter havido. Convém também não o relativizar, para incoerente não se tornar. Neste vai e vem, quase sempre não há justos nem errados. Só há pessoas procurando acertar, mas que continuam reféns de seus próprios labirintos.

De fato, perdão não se relativiza, nem se camufla. Perdão não se antecipa, nem se adia. Perdão não se exige, nem se economiza. Perdão não é destino, e sim origem. Perdão não é para poucos, e sim para todos! Perdão não tem apenas uma direção, mas dois sentidos. Pois não é via de mão única, e sim de mão dupla. O que não tem sentido, no entanto, é não lançar mão de uma das capacidades mais transformadoras que o ser humano já recebeu.

Na cruz, diante do arrependimento do ladrão e de sua demonstração de fé, Jesus disse: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso”! Independente da fé de cada um, além da extrema beleza que o perdão encerra, poucas coisas são tão necessárias hoje em dia. Verdadeiramente, desprezá-lo é empurrar a sociedade um pouco mais na direção da intolerância.

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As pessoas, a sociedade e o mundo precisam de paz. Arrepender-se e perdoar são algumas das armas mais poderosas de que dispomos para melhorá-lo. Não duvidem, o perdão tem efeito propagador, pois contagia e enobrece. Talvez em nenhum outro tempo precisamos tanto de sua força!

Nesta virada de ano, deseje “Perdão, saúde e paz!”. Não apenas para alguns, mas para todos os seus. Ao fazê-lo, talvez não percebamos, mas estaremos assumindo, cada qual consigo mesmo, um compromisso de tornarmo-nos pessoas melhores. E incentivando o próximo a fazer o mesmo!

Perdão, saúde e paz para todos! E um excelente 2019.

 

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