Tragédias sem fim. Impunidade sem fim. Anarquia sem fim!

Ricardo V. Malafaia     10/fevereiro/2019

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O mundo é movido pela lógica. Nem é preciso mergulhar nos ensinamentos de Aristóteles para compreender tal lei. Ou selecionar alguns entre tantos ditados populares que falam a respeito. Ou mesmo ler a primeira carta que São Paulo escreveu aos cristãos: “O que o homem semear, isso também ceifará (Gálatas 6:7)”. É o poder da lógica reconhecida pela Filosofia, pela sabedoria popular ou pela Fé. Verdadeiramente se tragédias colhemos, tem quem as produza. Tem quem as alimente. E tem quem lave as suas próprias mãos!

Pensando bem, de alguma forma, somos todos culpados. Jogar as responsabilidades destas tragédias somente nas costas de alguns responsáveis diretos é esconder-se nas trincheiras da covardia, nas barreiras da ignorância e nos abrigos da hipocrisia. Definitivamente há algo de muito podre no reino de cá dos trópicos.  E na encenação deste Hamlet sem fim, a nossa sociedade definitivamente é uma das estrelas do cast.

As tragédias que se sucedem em nosso país não são manufaturas. Nada disso! Em escala industrial, elas são de fato fabricadas em série. Se projetadas num gráfico visando a melhora produtiva da linha de montagem, poderiam ser divididas em três tipos. As que já produziram vítimas de forma direta. As que produziram de forma indireta. E as que ainda vão produzir.  Querendo ou não, estamos todos sentados num campo minado!  E infelizmente as próximas explosões ocorrerão. Aqui ou ali. Hoje ou amanhã.

Os dez meninos carbonizados vivos no CT do Flamengo. O caos e as mortes produzidos em poucas horas de chuva no Rio. As centenas de perdas humanas e a destruição do meio ambiente em Brumadinho e Mariana. As centenas de vítimas fatais e de feridos na Boate Kiss. Os incêndios no Hospital Lourenço Jorge que vitimou pacientes e no Museu Nacional que destruiu a nossa própria História.

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Os viadutos que estão para cair em São Paulo. As centenas de brasileiros que vão morrer neste mês nas nossas estradas e hospitais públicos. As milhares de crianças que entrarão para o tráfico neste ano em todo o país. A fortuna que será destinada para financiar os milhares de cargos públicos indicados por senadores, deputados federais e estaduais. Somemos então tudo isso e ainda sim estaremos apenas falando da ponta de um grande iceberg vermelho de sangue!

Entretanto se não há sequer um município no país onde algum tipo de fiscalização não deságue em extorsão ou suborno. Se temos a nítida percepção que cada uma destas tragédias não são consequências do acaso, mas da irresponsabilidade e negligência humanas. E se todas elas já acontecem há décadas, como então podemos fingir que somos meros expectadores e isentar as nossas responsabilidades?

Se percebemos que todo este processo maldito também está inserido no dia a dia da sociedade, onde o devaneio veste a roupa de domingo e faz com que a permissividade reinante seja chamada de “jeitinho brasileiro”, transformando defeito genocida em qualidade cultural, como então podemos encenar o soberbo e hipócrita papel de críticos e acusadores?

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Se desejarmos encontrar o verdadeiro motivo que está por trás de tantos desastres, não precisamos mergulhar em estudos acadêmicos profundos. Nem analisar as medidas corretivas adotadas em outros países. Basta procurar o espelho mais próximo e olhar bem no fundo de nossos olhos. Talvez então consigamos reconhecer que formamos uma sociedade doente, permissiva e anárquica. Onde o egoísmo venceu o amor ao próximo. E onde direitos e garantias fundamentais do cidadão foram confundidos com liberdade sem limite e certeza de impunidade.

Para trazer uma sociedade à luz, só há dois caminhos, distintos e complementares: conscientização e punição. O primeiro prescinde de uma grande autocrítica por parte de todos nós. Hábitos enraizados precisarão ser abandonados. E o troca-troca de acusações ideológicas deve enfim ser substituído por uma construção mais efetiva em busca da ética humana e social. Caráter e solidariedade não são pilares de nenhuma ideologia. São qualidades que perdemos ao longo de nossa História.

Quanto à punição, temos um longo percurso a trilhar. Nos últimos anos, demos os primeiros passos colocando na cadeia, de forma inédita, poderosos que desviaram fortunas em benefício próprio. Mas um mar de lama ainda continua soterrando a nação. Punir quaisquer criminosos, ricos ou não, de forma indistinta e exemplar, é condição básica para que a civilidade prevaleça.

Punir é ação democrática, pois corrige quem errou e educa os que podem errar. Todavia os críticos que ainda se levantam contra os esforços para aperfeiçoar a nossa legislação criminal, seja por questões ideológicas ou de quaisquer outras naturezas, de forma consciente ou não, contribuem para perpetuar a anarquia que acorrentou o país na escuridão do atraso e da ignorância.

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Se desejarmos atravessar o mar que liga a esgotada terra das calamidades ao solo fértil da esperança e da paz, precisamos navegar com determinação e coragem. E com o olhar fixo apenas no futuro. Com humildade devemos reconhecer que somos todos culpados. Em cada tragédia que viermos a presenciar, se procurarmos bem, encontraremos nossas próprias digitais. Entender nossas obrigações é aproximarmo-nos da solução. Um país desenvolvido é formado por cidadãos que compreendem as suas responsabilidades antes de seus direitos.

 

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4 comentários

  1. Muito bom! Refletir e não culpar, seria o caminho para o vislumbre de soluções para a nossa sociedade!

  2. O seu comentário foi perfeito. São anos a fio sem que nossas autoridades apliquem os recursos no que realmente é necessário. Os políticos têm como meta a perpetuação no poder, daí a corrupção e o populismo.

  3. Palavras lúcidas!
    Mas…. ainda levará alguns anos para que a maioria da população brasileira possa compreendê-las!

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