Radicalismos II – O conforto das trincheiras

Ricardo V. Malafaia     09/junho/2019

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A Neurociência, cujo foco é a pesquisa sobre a última grande fronteira do corpo humano, é um estudo científico que desperta, cada vez mais, um grande interesse em diversas áreas da sociedade. E uma de suas ramificações é a Neurociência Comportamental. Nela são desenvolvidos inúmeros estudos sobre o comportamento humano, dentre eles aquele que procura entender as razões pelas quais as pessoas enclausuram-se em bolhas de ideias e opiniões, cuja característica mais notada é a imunidade a quaisquer contraditórios.

Diferentemente de outras épocas, vivemos imersos num ambiente abundante de informações e de meios de comunicação. Entretanto o fenômeno que aponta para uma espécie de recrudescimento do fechamento em trincheiras de opiniões contrasta severamente com essa diversidade de plataformas e profusão de informações. É curioso. O mundo tecnológico revolucionou os meios para efetivamente se comunicar menos!

Se no futuro teremos respostas da Neurociência para esse enigma, ainda não sabemos. Mas o certo é que o presente oferece-nos diariamente um leque bastante diversificado deste teatro do radicalismo. São inúmeras trincheiras ocupadas por grupos numerosos, unidos na defesa de suas respectivas ideias e fechados na pronta negação e imediato desmonte de quaisquer informações que ameacem a sua crença central.

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Na verdade, excetuando-se países totalitários como China e Cuba, por exemplo, esse fenômeno acontece em todo o mundo livre. Contudo não se dá como aqui e como em nossos países vizinhos. Infelizmente o Brasil e o restante da América Latina ainda estão sujeitos a uma espécie de delay civilizatório. Ecos da revolução bolchevique e de nacionalismos de ultradireita, ocasionalmente entrecortados por alguns ruídos iluministas, muitas vezes acabam alimentando o nosso cardápio diário. E este enredo do passado termina por amarrar o nosso futuro com uma espécie de corrente do atraso.

Quando o governo de centro-esquerda tucano comandava o país, o PT, já percebendo a oportunidade que se apresentava, tratou de empurrar o PSDB para a direita com slogans cuidadosamente elaborados. Anos mais tarde, percebendo que, para assumir o poder de fato, ainda precisaria fazer um pacto nacional aparentemente abdicando de posições mais radicais, não teve dúvidas em se posicionar mais ao centro. Fruto desta estratégia de marketing foi a maciça votação que tornou possível que Lula subisse a rampa presidencial pela primeira vez.

O apoio inicial que seu governo usufruía claramente revelava uma unidade nacional em torno de seu projeto “moralizador” e de inclusão social. Percebam que ambas as pautas estavam do mesmo lado, apoiadas por quase toda a população. Contudo, para surpresa geral, das profundezas de Brasília o escândalo do Mensalão emergiu, e a estrela petista começou a perder as suas pontas.

Diante deste dilema de Neymar, as lideranças do partido tinham quatro alternativas. Ou apresentavam as provas que efetivamente as inocentassem. Ou faziam um grande e improvável mea culpa. Ou fingiam que nada tinha acontecido e que de nada sabiam. Ou partiam para o ataque declarando aos quatro ventos que tudo não passava de uma reação dos ricos que não queriam que pobres andassem de avião. Devido ao excesso de provas que os incriminavam, descartaram a primeira alternativa e abraçaram as duas últimas como um náufrago agarra-se a uma boia em alto mar.

Assim fizeram, e essa estratégia mostrou-se parcialmente eficaz nos anos seguintes. Lula reelegeu-se e ainda fez a sua sucessora. Todavia esse caminho escolhido causou, além da maior roubalheira que o mundo ocidental já conheceu, dois imensos estragos: a maior recessão que o país já experimentou e a divisão de uma Nação em duas partes. Comparando os três cruéis legados, difícil dizer aquele que mais se aproxima do próprio inferno.

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Limitando-se especificamente ao triste legado da divisão da Nação, e como a Terceira Lei de Newton não se restringe à própria Física, a direita mais radical que hibernava há muitos anos perdeu a vergonha e decidiu expor-se e mostrar a sua espada. Assim, no caldo tecnológico das mídias sociais, as radicalizações tomaram o lugar da capacidade de se comunicar. No mundo de hoje, o Velho Guerreiro pregaria no deserto!

O entrincheiramento ideológico tem ocorrido de forma automática e irracional. Poucos preocupam-se em questionar a si próprios e aceitar que o contraditório possa estar mais perto da verdade do que a sua convicção. Ao invés de o país formar pensadores independentes, as novas gerações estão aprendendo que a capacidade para pensar e questionar pesa muito pouco. Mais importante é acomodar-se junto aos seus pares e adotar os mesmos discursos!

 

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