Coronavírus, mais que um vírus, um agente de mudanças

Ricardo V. Malafaia     29/março/2020

corona 1

Nos últimos cem anos, a humanidade atravessou inúmeros eventos importantes, que ajudaram a moldar o mundo onde hoje vivemos. Contudo alguns poucos se tornaram capítulos tão marcantes que mudaram o rumo da nossa própria História.

Na Geopolítica, a vitória dos Aliados na Segunda Grande Guerra que evitou que o Nazismo, regime totalitário de Direita, dominasse o mundo; e a queda da União Soviética, que cessou a determinação expansionista do Comunismo, regime opressor de Esquerda, para os quatro cantos do planeta, foram fundamentais para que a busca pela Democracia, nas últimas três décadas, consolidasse-se como o melhor caminho a ser seguido pela grande maioria das nações.

No campo tecnológico, a invenção dos computadores pessoais, dos sistemas operacionais, da internet e, não menos importante, das mídias sociais, permitiram que, entre tantos outros benefícios, desse-se voz a quem não tinha. E possibilitaram que um inédito processo de equilíbrio democrático iniciasse-se, fazendo com que as escolhas da sociedade não mais ficassem limitadas aos períodos eleitorais, mas que se fizessem no dia a dia. A sociedade aprendeu a conversar e articular entre si, e buscar os seus melhores caminhos. Uma direção regeneradora e sem volta, cuja caminhada iniciou-se apenas ontem.

E o Coronavírus, qual o verdadeiro impacto que terá em nossa História? Quais as consequências que ele legar-nos-á? Quais as reflexões que seremos obrigados a fazer no pós-pandemia? De fato, querendo ou não reconhecer, jamais o mundo parou. Em nenhum outro momento, mais de três bilhões de pessoas confinaram-se em suas casas, número equivalente ao total da população mundial há apenas cinquenta anos.

corona 2

Algumas constatações já podemos fazer de cara. O homem é muito mais reativo do que deveria. Como Stephen Hawking avisou-nos antes de nos deixar, as pandemias estão entre os maiores riscos para a humanidade. No entanto, o mundo não se precaveu. Mas agora irremediavelmente o fará, pois ficou mais pobre, mais triste e mais temeroso. E porque também sabe que, mais cedo ou mais tarde, novas pandemias virão.

Displicente, o homem reage mais do que se antecipa. Contemporiza desde o aquecimento global até o distanciamento de valores, passando pela naturalização do sofrimento alheio, pela valorização do materialismo, pela adoração à banalidade e à fugacidade, pela aceitação de radicalismos, pela incorporação do ódio e do egoísmo, pela subjugação ao populismo, pela mitigação da fé. Errar, como se sabe, é humano. Mas persistir no erro pode ser perigoso, pois nem sempre haverá uma segunda chance!

corona 3

Se o mundo já é complicado hoje, imaginemos como será com a introdução do próximo evento que, mais uma vez, transformará o mundo: a inteligência artificial. Talvez não prestemos atenção, mas entrar nessa nova era arrastando para dentro dela todas as omissões e radicalismos que ainda estimulamos hoje é jogar roleta russa com o futuro da humanidade. O nosso atual obscurantismo poderá legar às futuras gerações privações das quais dificilmente escaparão.

A polêmica que envolve priorizar a economia ou a vida não é escolha de Sofia. Primeiro porque é falacioso colocar desta forma. Vida e economia não se antepõem, pois são sequenciais: uma vem depois da outra. E, em segundo lugar, porque sempre haverá maneiras, através da união entre Estado, empresas, setor financeiro e sociedade, para se opor ao empobrecimento e à perda de empregos. Quando o ser humano decide trabalhar junto, quase tudo pode ser feito. Basta olhar para a História e veremos sociedades que rapidamente se reergueram após grandes sofrimentos.

Relativizar a vida é não entender porque estamos aqui. Relativizar uma única vida é desqualificar a nossa própria condição de ser humano. Não interessa se passou dos sessenta anos e carrega dez doenças crônicas. Estar vivo é merecer a preocupação e o zelo por parte de toda a sociedade, sobretudo dos governantes.

Interessante observar as intolerâncias de parte a parte. Por um lado, observa-se com extremo pesar a frieza de um presidente relativizando a vida e colocando-a como efeito colateral. Que triste! Por outro, críticas justas contra esse posicionamento, mas muitas vezes ferozes e vindas de quem defende… o aborto. Opa! Vamos entender: para alguns a vida é mais importante que a economia, mas menos importante que o direito ilimitado da mulher sobre a vida que eventualmente carrega dentro se si. Ah tá!

corona 4

O ser humano acostumou-se a viver em bolhas. Mas são bolhas especiais, pois elas possuem pequenas janelas. Na verdade, mínimas. E é através destes orifícios que às pessoas inseridas nestas bolhas são permitidas enxergar o mundo. Além do que, estas bolhas produzem uma primeira substância, conhecida como ódio, para que seus integrantes mantenham-se afastados de quem pensa diferente.

A segunda substância também produzida pelas bolhas, conhecida como engodo, tem a finalidade de embaralhar o raciocínio, realçando de forma indefinida qualquer reportagem ou informação que reforce a sua opinião interna e predominante. O descarte de informações contrárias também faz parte da engrenagem destas bolhas. Mas isso é feito pela terceira substância: o preconceito. O mais interessante é que todos aqueles inseridos em bolhas ignoram o seu cárcere.

Pela primeira vez em toda a História, todos os povos trabalham juntos, na mesma direção, pois têm um inimigo comum: o Coronavírus. Esta experiência de trabalharmos unidos não será esquecida. Terá um efeito marcante em nosso aprendizado. Jamais o mundo foi tão unido, mesmo que por poucos meses. Muita coisa será dita e escrita sobre isso. E o mundo jamais será como antes.

Confinados dentro de casa, estamos forçosamente voltados para a família, para nós mesmos e para a nossa própria fé, afinal ela é o último porto seguro quando todo o resto falta. Mas não deveria ser assim. Se a família é o maior bem que possuímos, estar bem consigo próprio é fundamental para a felicidade de qualquer um. Pois ficar feliz ao se encontrar com o seu íntimo é entender que estar sozinho não é ser solitário. Cada um de nós tem uma oportunidade única para descobrir o mundo maravilhoso que há dentro de si.

E recorrer à fé não deve ser o último porto seguro, quando todo resto já se foi. Mas sim o primeiro porto. O porto de onde tudo parte, e cuja caminhada não saberemos por onde iremos passar. Mas que saibamos, sim, de onde viemos e aonde, no final, aportaremos. Compreender isso é olhar ao redor com mais paz e com mais amor. E entender que tudo passa.

corona 5

Esta pandemia escancarou a nossa fragilidade e a nossa interdependência. Nunca a humanidade sentiu-se como uma única espécie como nestes dias. A percepção de que estamos no mesmo barco, a partir de agora, pode fazer com que a solidariedade saia da prateleira das boas ações e vá para a prateleira das necessidades. O ato de lavar as próprias mãos hoje pode ensinar o hábito de uma mão lavar a outra amanhã. O barco nunca esteve tão cheio!

6 comentários

  1. Tirando a parte do direito ao aborto, que não concordo com abordagem feita, muito bom o texto!!
    Querendo ou não, o mundo que conhecemos está mudando..tomara que seja pra melhor mesmo. Precisamos urgentemente evoluir, cada qual com sua crença ou não crença, mas sempre com base na empatia, no respeito, no diálogo,no amor. Já passou da hora, mas acho que ainda dá tempo.

  2. Boa tarde!

    Perfeito o seu artigo acerca do momento que estamos vivenciando!

    Parabéns!!!

    bjs

  3. Parabéns! Muito bom! Vc sempre coerente,sensato e sensível! Que essa pandemia mundial sirva para refletirmos sobre o que é importante na vida! Excelente ! Bj

  4. Grande Ricardo! Como digo: a Humanidade transpassa o tempo e seus objetivos sempre são os mesmos; sexo, dinheiro e poder. Daí você vem e faz uma análise bem temporal, quando a humanidade se perde de suas amarras e seus acessórios e se vê voltada para um Bem maior, parabéns pela reflexão amigo.

  5. Como sempre, claro, conciso, escrito com a competência de quem pesquisou profundamente o assunto. Parabéns pelo texto de grande utilidade pública

Deixe o seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s