Por que Bolsonaro cruzou uma linha que não se cruza?

Ricardo V. Malafaia     05/abril/2020

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Há linhas polêmicas que um Presidente pode até cruzar e conseguir depois recuperar a sua popularidade. Entretanto há outras que jamais se deve transpor, sob pena de assistir a sua imagem desbotar de forma definitiva. A sociedade julga conforme o seu próprio código. Não o conhecer poderá ser fatal.

Bolsonaro, ao se candidatar para Presidente, colocou-se no lugar certo e na hora certa, falando o que a sociedade precisava ouvir. Elegeu-se também com a ajuda de uma facada, mas principalmente porque ajudou o país a livrar-se do PT, um partido que virara quadrilha da pior espécie.

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Ao tomar posse, teve o mérito de escolher alguns ótimos nomes para o seu ministério, inclusive um então desconhecido Mandetta. Só não acertou nas escolhas dos indicados pelo astrólogo de Virgínia. Se Olavo foi fundamental na eleição de Bolsonaro, de lá para cá tem atrapalhado muito mais do que ajudado. Mas nada se compara à insistência de se manter incompetentes olavetes no comando do MEC. Uma burrice! Mas isso o povo ainda releva.

Jogou as suas fichas na aprovação da essencial Reforma da Previdência. Alguns tentaram, mas foi em seu governo que esse passo foi dado. Ponto para ele. Outro grande mérito da sua gestão foi a concretização do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia. E, sem sombra de dúvidas, a manutenção dos principais nomes no primeiro escalão do seu ministério tem sido fundamental para o sucesso de parte de seu governo.

Como já disse o General Villas Bôas, Bolsonaro é incontrolável. Incontrolável mas previsível, afinal ninguém mais se surpreende diante de sua capacidade de gerar crises, de afastar fiéis amigos e de produzir rompantes sem nexo. A população já incorporou essa realidade à paisagem. E, por isso, também releva.

O perfil psicológico de Bolsonaro não é simples, e será estudado ainda por muito tempo. Certamente, diante de sua lógica de permanente confronto, seu perfil psicológico adéqua-se mais à figura de um demolidor, algo como se apresentava na época em que era candidato à Presidência, do que à figura de um construtor, papel essencial para quem ocupa o cargo de mandatário de uma Nação. Mais complicado fica quando decide construir escolhendo como conselheiro o radicalismo no lugar da inteligência. Mas isso, por incrível que pareça, a população também releva.

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Ao explodir as denúncias contra o seu primogênito no inicio de seu mandato, adotou postura ambígua. Mas ao correr do ano, decidiu definitivamente chutar para escanteio a bandeira do combate à corrupção e assumiu rasgadamente o papel de pai, aliando-se com quem fosse para impedir que a Justiça desempenhasse o seu ofício. E como os indícios contra o 01 são fortíssimos, a perda de apoio popular foi considerável. A sociedade avisou que a carta não era branca e o recado estava dado.

Voltando ao seu curioso perfil, a população passou a assistir a um Presidente apequenando-se ao permitir que parte do comando do país fosse feito pelo 02, um simples vereador com sérios transtornos psicológicos. E igualmente assistir às crises de ciúmes manifestadas diante de quaisquer brilhos apresentados por um de seus subordinados. É como se o presidente do Flamengo quisesse, de uma hora para outra, demitir o Gabigol por causa de sua súbita fama e eficiência. Tenha santa paciência!  Definitivamente não entende que o ciúme nasce da insegurança, e que esta última é diretamente proporcional à falta de competência.

Na verdade, com exceção do seu surpreendente giro de 180º graus na questão do combate à corrupção, tão caro àqueles que o fizeram subir a rampa, todas essas excentricidades apresentadas neste primeiro terço de mandato têm sido mais ou menos relevadas pela base que ainda o apoia. Mas, como tudo na vida, há limites. E alguém que decide ocupar o posto mais alto da Nação tem por obrigação conhecê-los.

Quando um capitão decide ser o último a desembarcar diante de um eventual afundamento, não assim procede por que a tradição exige, nem por que algum código militar ou mercante assim o obriga. De fato, ao perceber que a nave que está sob seu comando naufraga, o verdadeiro comandante decide ser o último a se salvar apenas para garantir que todos os outros se salvem. Somente por esta razão.

Bolsonaro, diante da pandemia do coronavírus, por diversas vezes relativizou as vidas que se perderão diante das complicações causadas por esta doença. E mais: propôs o fim do isolamento social, criando o falso antagonismo entre economia e vidas. Pior do que a ignorância é o pouco caso diante de uma virtual explosão do número de mortes causadas por um eventual fim do isolamento social antes da hora.

Estamos falando de milhares de vidas que poderiam ser ceifadas pela absoluta ignorância e insensibilidade. Cabe a um Presidente governar o seu país. Mas cabe também protegê-lo. E proteger uma Nação é cuidar da saúde e da vida de todos, e de cada um. A vida de quem quer que seja é muito importante. E o Presidente é o maior responsável em protegê-la, quanto mais de milhares delas. A população sabe disso, mas ele não. E por isso, os últimos panelaços.

A ciência é uma das bases mais sólidas de nossa civilização. Pode-se discutir dentro dela quais os melhores caminhos a serem tomados, mas nunca fora dela. Com qual embasamento técnico Bolsonaro contraria todo o mundo científico ao pedir que todas as pessoas voltem para a rua? Relativizar milhares de vidas já é rasgar qualquer base de apoio. Mas fazer isso contrariando a própria ciência é explodir qualquer linha de defesa.

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Bolsonaro cruzou uma linha que jamais se cruza! O leite derramou, não para o seu governo, mas para ele! Os próximos dois terços de mandato serão inéditos. Ele fingirá que governa, e nós fingiremos que somos governados por ele. E Guedes, Moro, Mandetta e Heleno sabem disso. Ah, Mourão também!

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