Letalidade e transmissibilidade … da falta de amor

Ricardo V. Malafaia     12/abril/2020

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Em tempos de distanciamento social, diariamente acompanhamos a atualização dos números de mortos e infectados pelo coronavírus. Os mais afeitos aos cálculos talvez façam as contas se a taxa de letalidade e transmissibilidade caminham ou não para o achatamento da curva. Pois é, a vida de muita gente está em jogo. Afinal o inimigo é invisível e mortal. Mas certamente não é o único!

De fato existe muita semelhança entre esse vírus que recentemente vem assombrando o mundo e a falta de amor que já está entre nós faz tempos. Embora ambos mostrem-se invisíveis como atores, seus efeitos são irremediavelmente reais e dolorosos, sendo ainda dramaticamente acirrados tendo em vista os seus graus de letalidade e transmissibilidade. Sim, é isso mesmo. A falta de amor também é altamente transmissível e letal.

Tal qual o coronavírus, a falta de amor também sofre mutações, impacta mais certos grupos de risco, relaciona-se com o distanciamento social e ainda é ignorado por parte da sociedade. Há apenas duas importantes diferenças entre eles. Uma delas é a tangibilidade de seus rastros. E, sobre a outra, falamos mais a seguir.

Enquanto, por onde passa, o Covid-19 arrogantemente deixa um rastro de mortes e de internações com gravidade, a falta de amor é mais dissimulada. Mais dissimulada, mas não menos devastadora. Na verdade, caso pudéssemos comparar, de um lado, todos os danos causados por todas as pandemias recorrentes que já rasgaram a humanidade com, do outro, todo o sofrimento que o ser humano já sofreu devido às feridas abertas pela ausência do amor ao próximo, seria como comparar a massa de alguns poucos cometas com a massa de nossa Via Láctea.

Sim, a falta de amor é dissimulada, pois age sem ser vista. Ela é furtiva, fria e sorrateira. Esconde-se por trás de ideologias que se polarizam, de todos os sistemas econômicos conhecidos e de classes sociais. Esgueira-se entre preconceitos, falta de tempo e egoísmos. Camufla-se entre relativismos, falsas virtudes e fanatismos. Mascara-se entre as diferenças, as falhas e, o pior entre os piores, a ignorância.

A ausência de amor é irremediavelmente o mais cruel e resiliente inimigo que poderíamos enfrentar. Afinal ele não é o que é, e sim o que não é. Como não é amor, sobrevive por causa de sua total ausência. De lá não sai luz, só escuridão. Como um buraco negro que, quanto mais atrai para si, mais capacidade tem de atrair, a falta de amor também tem o seu campo gravitacional. Ao se permitir passar perto dele, capturado será!

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Da mesma forma que a falta de amor é ausência, a ignorância também é. Através de uma parceria eficiente, a falta de amor e a falta de inteligência passeiam pelos séculos de mãos dadas. Como a mitologia draculiana, a ausência de amor, ou de vida, precisa beber do sangue da ignorância para se manter ativa e rejuvenescida, atravessando os tempos e vitimando quem se coloca à sua frente.

A falta de amor opera em todas as direções e intensidades. Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando se opõe ao combate à corrupção, ou quando se bajula quem permitiu corromper. Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando se relativiza uma ou muitas vidas, ou quando se bajula quem permite relativizar.

Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando o devaneio que toma conta dos um por cento mais ricos permite gastar numa diária de spa para seu pet mais que um salário mínimo. E quando os poderes constituídos trabalham para que essa concentração de riqueza continue como está.

Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando o Estado paga enormes salários e adicionais para muitos privilegiados servidores. E quando não se entende que a máquina de produzir novos jovens membros de facções criminosas nas comunidades carentes passa pela absoluta ausência do Estado, sobretudo da Educação de qualidade e universal. Não compreender o processo desta engrenagem é não conhecer probabilidade e estatística básica.

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Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando se insulta o sagrado de uma fé. Quando se ofende o sentimento alheio. Quando não se importa com o sentimento alheio. Quando não se pratica a empatia. E quando não se percebe que a verdade está longe de cada um de nós.

Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando se permite não perdoar. Quando não se compreende que a incapacidade de perdoar alguém está muito mais ligada à sua própria carência emocional do que ao motivo ou à pessoa que causou uma determinada mágoa. E quando não se percebe que o perdão liberta e o faz avançar num caminho que o levaria a um bom lugar.

Ofende-se o mais puro dos sentimentos quando se passa o dia inteiro cultivando a indiferença (letal como uma arma). E quando a indiferença encontra a ignorância, milhares de vidas serão ceifadas. É como se esse encontro produzisse trilhões de RNA’s de coronavírus. Pior do que a doença do corpo é a doença do coração e da alma.

Faltou mencionar a segunda diferença entre este vírus e a falta de amor. Enquanto ainda demorarão alguns meses para desenvolver a vacina contra este vírus, já conhecemos há 2.000 anos aquela que pode combater a ausência do amor. Crendo ou não em Sua santidade, ninguém pode negar a Sua mensagem:

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“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os Defensores da Paz, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”!

Amar a si próprio é importante. Amar a sua família também. Mas amar todo o semelhante, inclusive aquele que não conhece, é caminhar um pouco mais. Amar aquele que pensa muito diferente de você é ir mais longe. Amar aquele que já te fez sentir mal é chegar a algum lugar. Uma sociedade que ama mais também realiza e resolve mais.

 

4 comentários

  1. Lindo lindo e verdadeiro. Só pessoas sensíveis como Ricardo são capazes de descrever tão bem os sentimentos. Feliz Páscoa!

  2. Excelente texto, Ricardo!
    Ao fazer a comparação entre o coronavírus e a ausência de amor, vc nos emociona…
    Graça

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