As bolhas que não se dissolvem

Ricardo V. Malafaia     19/abril/2020

bolhas 1

Em plena aceleração da curva de aumento de óbitos no país por causa da Covid-19, a discussão neste final de semana passa a ser sobre Intervenção Militar, AI5, fechamento do Congresso, STF e comunismo. Opa! Mas se a pandemia ocorre no mundo todo e não vemos em nenhum outro lugar imagens de carreatas pedindo “intervenção já”, a não ser aqui, ou somos muito mais espertos do que eles, ou…

A eterna discussão entre a teoria que afirma que o homem é produto do meio e a teoria que diz que, ao nascer, as características básicas de cada um já estão formadas não passa de uma perda de tempo, pois, de fato, ambas estão certas nas suas existências e erradas em suas exclusividades. Ocorre que apesar de suas inatas características, o homem é sim influenciado pelo meio. E, mais do que isso. Cada qual possui o seu próprio livre-arbítrio!

Entretanto possuir o livre-arbítrio não quer dizer que automaticamente o usará. Muitas vezes o ser humano esquece-se de que possui a capacidade de pensar por si próprio, deixando para outras pessoas uma tarefa que deveria ser sua e apenas sua. Mas esse processo não acontece de forma automática.

Diante dos desdobramentos que se sucedem no dia a dia de nossa sociedade, firma-se posições conforme a crença e valores de cada um, o que é natural. Contudo, após a percepção de que outros pensam de forma semelhante, permite-se mergulhar de cabeça em uma espécie de clube que o acolhe, mas que faz uma única exigência: “Aceite como verdade tudo o que te for apresentado, ok?” Pronto, já foi. Daqui para frente suas opiniões sofrerão forte influência deste meio. Mas que pode ser chamado de bolha ideológica.

bolha 2

Após alguns estudos científicos, ficou provado aquilo que já se imaginava: as mídias sociais não criaram as bolhas ideológicas. Deram apenas cara e voz. Mas também deram escudo para quem quisesse propagar falsas informações ou extravasar quaisquer sentimentos não muito construtivos.

A bolha da direita, de forma automatizada, compra e replica um bando de mensagens disparadas por robôs. Sem se darem conta, seus integrantes participam de uma espécie de experiência antecipada daqueles mecanismos que envolvem a inteligência artificial.

A bolha da esquerda, igualmente de forma automatizada, não compra mensagens, mas sim narrativas robotizadas. Participantes ativos de um mecanismo alternativo de IA, interagem como máquinas tal qual os seus pares da bolha inimiga.

De fato, os integrantes destas duas bolhas deliberadamente abrem mão da capacidade de pensar e refletir, e, como máquinas, interagem entre si sem perceberem que são efetivamente conduzidos por alguns poucos inescrupulosos humanos.

Se ambas as bolhas são opostas em suas visões de mundo, são extremamente iguais quanto à ignorância de pertencerem a universos deliberadamente mecanizados, dentro dos quais é permitido quase tudo, menos colocar a cabeça fora d’água.

As razões pelas quais as mensagens intrabolhas são permanentemente repassadas passam pela absoluta ausência de filtro para separar o que é ou não racional. Pela predisposição para aceitar como verdade tudo que se receber. Pela ilusão de que as pessoas de cá, de forma exclusiva, antecipadamente receberam a graça de ver a luz. Pela crença de que as pessoas de lá, ou são cegas, estúpidas ou têm má fé. E pelo direito divino de poderem usar a ironia e a ofensa para se manifestar sobre qualquer ser do lado de lá. Enfim, um verdadeiro show de irracionalidade, de falta de cavalheirismo e de ausência de civilidade!

O mais interessante é que, ao ler este artigo, quem pertence a uma das bolhas talvez concorde com as observações feitas aqui sobre o lado de lá, mas definitivamente não concordará com aquelas feitas sobre o lado de cá. E, como num passe de mágica, o efeito inverso automaticamente acontecerá.

bolha 3

Voilà tudo se mantém como ninguém. Cada qual continua acreditando que a verdade é uma posse individual, como uma espécie de escova de dente. Cada um tem a sua própria, e estamos conversados. Só que não, pois não percebem que a sua cara opinião não passa de uma perfeita xerox de todas as outras da mesma bolha. Que falta de imaginação!

Para quem gosta de números, as contas são assim: 30% fazem parte da bolha automatizada da direita; outros 30% robotizam-se na bolha da esquerda; e 40% tentam pensar. A boa notícia é que este grupo, mesmo ainda não formando a maioria, tem sido o fiel da balança nas ultimas eleições.

Mas estes 40 % não são formados por pessoas mais inteligentes do que aquelas que compõem as duas bolhas. Formam apenas uma imensa parcela da população composta por quem não foi infectado pelo vírus da ignorância ideológica. Ou por quem até já foi, mas que se curou e possivelmente adquiriu a imunidade necessária.

Imaginemos aquela cena clássica onde um viajante no deserto, sob sol escaldante e sem uma gota d’água, delirantemente enxerga um oásis onde nada há. Na verdade, sua mente nada mais faz do que projetar aquilo que ele gostaria que existisse, mas efetivamente não há.

Assim fazem os seguidores do bolsonarismo sem filtro. Enxergam liderança e estratégia onde não há. Não percebem que Bolsonaro, mesmo possivelmente bem intencionado e acertando em algumas coisas, erra profundamente em não liderar o país em um de seus momentos mais críticos.

As bolhas estão aí. Uns ainda veem Lula apenas como vítima ao invés de enxergá-lo como criminoso que é. Outros fazem carreatas para que a Intervenção Militar aconteça por que o presidente conclama o povo para voltar às ruas no momento em que o mundo todo faz exatamente o contrário.

bolha 4

Delírio por delírio, o Brasil precisa de fato de lideres que estejam à altura destra grande Nação. Só assim estas duas bolhas sem sentido poderão ser dissolvidas para sempre. Que Deus dê espaço para que verdadeiros líderes possam surgir e trazer luz onde ainda há muito para ser iluminado!

10 comentários

  1. Ricardo, Concordo plenamente com suas observações. Análise perfeita! Parabéns!

  2. Maria, cada um de nós merece todo respeito independente da opinião que tem. Bolhas não são pessoas, são lugares virtuais que reúnem pessoas cujo senso crítico pode estar fora de sintonia.

  3. Eu não ou bolha, sou ser humano, E o meu Presidente me representa, Esse STF e esse Maia e Alcolumbre são a podridão da nação, O povo não suporta mais tanta corrupção e manobras pra prejudicar a Nação.

  4. Acontece que a bolha da esquerda também comete erros, não há a menor dúvida.Todavia nunca pediu o fechamento do Congresso nem atentou contra os princípios democráticos inscritos em nossa Constituição. Mas o que se vê agora é uma turma raivosa apoiando um presidente que se nega a governar para todos os brasileiros e por interesse eleitoreiro insufla seus obcecados seguidores a se manifestarem nas ruas por soluções anti democráticas e em seguida ardilosamente nega tudo que afirmou na véspera. Como pode ser respeitado quem mente tanto tantas vezes?

  5. Há pouquíssimos momentos tão genuínos e eficazes na Democracia quanto as manifestações populares. Melhor ainda quando defendem pautas como o combate à corrupção e a defesa de um Presidente eleito. Contudo defender pautas antidemocráticas ou qualquer outra que contrarie a Ciência não é o melhor caminho. Falando em combate à corrupção, bem que o próprio Governo poderia fazer muito mais e não contrariasse tanto o seu próprio ministro da Justiça nesta empreitada.

  6. A maioria pedia FORA MAIA.
    Algumas faixas de mais exaltados pediam o fechamento do Congresso como uma forma de protesto contra a corrupção que ainda reina no Legislativo de fato.
    Infelizmente isso ocorre a nível Federal e também Estadual / Municipal. Não há como negar.
    É uma forma de manifestação legítima quando sem violência, porém concordo que exagerada quando alguns pedem um novo “AI-5”. Mas de fato não é generalizada. Pouquíssimos que conheço falam em fechamento do Congresso, mas é unanimidade a repulsa quanto ao MAIA, sejam amigos de direita, centro ou esquerda.

    Se for analisar com calma, os movimentos em sua grande maioria deste final de semana foram apenas carreatas. Pessoas dentro de seus carros e sem contato em aglomerações.
    Claro que na TV deram ênfase às imagens de pessoas mais exaltadas que se aglomeram a pé, o que concordo não ser o momento adequado. Essas sim podem ser consideradas irresponsáveis.
    Mas tive a oportunidade de ver lives em diferentes estados e não foi exatamente isso.
    Na grande maioria dos movimentos as pessoas ficaram nos seus carros apenas, havia essa preocupação.

  7. Guilherme, se for verdade, ok. Que se voltem contra o Rodrigo Maia. Ponto! Mas pedirem o fechamento do Congresso e do STF, o retorno do AI-5 e, não menos, pedirem que o povo volte às ruas próximo ao pico da pandemia? Isso é delírio típico de bolha irracional. Não há justificativa!

  8. Independente da bolha de direita e de esquerda, na minha opinião, estão claras as manobras do Rodrigo Maia ao definir as pautas da Câmara ou alteração de propostas que no final trarão prejuízos ao Brasil.
    É um político da pior espécie que não pensa no país.
    Vejo como principal motivo das manifestações deste final de semana a revolta com a atuação do Presidente da Câmara.

    Taí uma diferença dos políticos brasileiros para os americanos.
    Apesar de estarem em lados opostos, muitas vezes vemos democratas e republicanos apoiando a mesma causa por um interesse acima do partidário: a pátria.
    Aqui, boicota-se projetos fundamentais para o país alegando falta de diálogo. O que quer dizer é que faltam propina e outros favores. Querem a volta da velha política dos últimos 30 anos…

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