Entre o obscurantismo e a solução

Ricardo V. Malafaia     31/maio/2020

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Vamos direto ao ponto: o que tem de racional e irracional nessa história de defender ficar em casa ou sair para a rua nessa pandemia? Quanto dessa discussão é ou não ideológica? Até onde é válido colocar a vida e a economia em lados opostas da mesa?

Para melhor analisar essas questões, vamos escolher através de qual tabuleiro deveremos raciocinar. Olhando um pouco para trás, percebemos que o mundo já assistiu a algumas grandes vitórias da humanidade. E quando a elas nos referimos, estamos falando daquelas que trouxeram avanços significativos e permanentes, além de terem sido norteados por nobres ideais.

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Como exemplo dessas grandes vitórias, podemos citar o fim do Apartheid na África do Sul, a independência de forma pacífica de um país gigante e religiosamente complexo como a Índia, o desenvolvimento da vacina oral contra a poliomielite por Albert Sabin, a queda do Muro de Berlim marcando o fim da União Soviética e a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. À luz de todos estes processos, invariavelmente dois fatores estiveram sempre presentes: a razão e o amor ao próximo.

É através destes dois nortes, razão e amor ao próximo, que devemos enxergar o mundo. E foi a partir deles que, ao longo destes últimos dois anos, todos os sessenta artigos aqui postados neste blog foram pensados e cuidadosamente construídos. O que alguns agora falam em virtude desta pandemia, aqui já se falava faz tempo.

Acreditamos que tudo na vida, seja sobre questões pessoais ou coletivas, deva ser analisado tendo esses dois nortes como inspiração. Alguns podem achar, contudo, que o amor ao próximo é algo em extinção, e que é um tanto ingênuo pensar o mundo através dele. Não, não é ingênuo! Ingênuo, de fato, é desconhecer o real poder desta força. É não perceber que o amor é algo real e está entre nós. E que essa poderosa força é a principal alavanca do genuíno progresso humano (entendemos como progresso algo bastante diferente da conatação usual que a ele é dada).

Bom, tabuleiro selecionado. E definidas as únicas duas peças, razão e amor ao próximo, que se moverão na busca pelo equacionamento das questões apresentadas no inicio deste artigo. Comecemos então pela primeira: o que tem de racional e irracional nessa história de defender ficar em casa ou sair para a rua nessa pandemia?

Para entendermos melhor o comportamento do Covid-19 no Brasil até aqui, desenvolvemos dois gráficos que apresentamos a seguir. O primeiro mostra a evolução dos óbitos no país ao longo das 11 semanas que se sucederam desde o primeiro caso notificado. Por questões de didática, optamos por apresentar a evolução de forma semanal.

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Evolução semanal do número de óbitos causados por Covid-19

Diferentemente da divulgação de casos da doença, os números de óbitos apresentados pelo governo sofrem uma subnotificação bem inferior. E, mesmo diante desta eventual subnotificação, desde que esta falha permaneça constante ao longo do tempo, o gráfico apresentado a seguir não sofreria mudança significativa. Muitos adotam a função logarítmica como opção de gráfico. Mas decidimos por uma análise sobre a “evolução de percentuais” por acreditarmos ser mais esclarecedora e de fácil entendimento.

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Evolução dos percentuais dos números de óbitos por Covid-19 no país de uma semana em relação à semana imediatamente anterior

Em função da comparação com a semana anterior, iniciamos o gráfico pela segunda semana. Analisando-o, o que chama bastante atenção é que os percentuais entre a quarta e sexta semana regridem de forma praticamente proporcional. A sequência tracejada procura mostrar que a função caminharia naturalmente para 0% de aumento. Isto quer dizer que teríamos atingido o famoso pico na sétima semana. Mas algo aconteceu e, ao contrário da tendência manifestada nas três semanas anteriores, houve uma reversão brusca da evolução.

Fazendo um fácil exercício de memória recente, nada se encontra no front a não ser os sinais trocados que vieram de Brasília, confundindo a cabeça de muitos, e levando a uma anarquia generalizada se estávamos ou não vivendo uma pandemia. Saldo: dez a quinze dias após a demissão do Ministro Mandetta, com todos os significados desconexos à tiracolo, uma baita guinada na curva. O que na sétima semana seria 0% de aumento de óbitos saltou para 60%.

De lá para cá o percentual de aumento tem caído lentamente. Como nesta última semana houve uma redução para 7%, podemos imaginar que estamos chegando perto do pico nacional. Pico não, platô. Se observarmos os gráficos da evolução de óbitos em outros países, veremos que a subida até o máximo foi rápida, mas que a descida tem sido bem mais vagarosa.

Fazendo-se uma projeção de que provavelmente ficaremos neste platô por algumas semanas e que a descida será igualmente lenta, deveremos realmente chegar próximos, até o mês de agosto, aos cento e vinte mil óbitos projetados para o Brasil por um dos principais modelos utilizados pela Casa Branca para monitorar números sobre o coronavírus.

Resumindo, ao invés de termos percorrido um platô com aproximadamente 1.700 óbitos semanais a partir da sétima semana, seremos obrigados a enfrentar um outro longo patamar, com cerca de 7.000 óbitos semanais. Nada menos do que quatro vezes maior. Trocando em miúdos, a partir de um cálculo razoavelmente simples, chegamos ao espantoso cenário onde, possivelmente, de setenta a noventa mil vidas poderiam, mas não serão mais poupadas!

E mais. Caso tivéssemos sido todos lúcidos e liderados através da razão e do amor ao próximo, a partir desta primeira semana de junho, cerca de 70% dos municípios e cidades brasileiras já poderiam migrar, ainda que usando máscaras, para uma vida quase normal. Não, definitivamente o isolamento social nunca foi o inimigo da economia. Os inimigos, na verdade, são apenas dois e têm nomes: o Covid-19 e a burrice!

Os que estão no poder jamais compreenderam que um curto, forte e uníssono isolamento social teria sido a melhor saída para uma eventual rápida retomada econômica. Agora é tarde, pois viveremos no pior dos mundos. Naquele onde a morte e o empobrecimento deram-se os braços. O obscurantismo ideológico venceu.

Não só aqui, mas em todo lugar a cegueira é total. Intolerância, negacionismo, populismo, racismo, privilégios, impunidade, falta de empatia, pobreza, oligopólios, corrupção, esfacelamento familiar, blasfêmias. A falta de respeito tem várias faces, é total e generalizada. A verdade é que o mundo já está cansado de ser refém de uma discussão sem fim entre a Direita e a Esquerda. Elas falharam completamente, pois não conseguiram dar as respostas adequadas aos problemas humanos.

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Mas uma nova visão pode estar surgindo. Uma visão que percebe que os valores morais e humanos podem e devem conviver harmoniosamente. E que em nada precisam ceder naquilo que lhes é mais caro. Mas que podem e devem ceder naquilo que precisa ser mudado. Que a Direita e a Esquerda sejam chutadas para longe e para sempre. E que a razão e o amor ao próximo, faces da mesma moeda, sejam os pilares de um novo mundo.

2 comentários

  1. Perfeito! Juntos por uma sociedade que tenha como pilares a razão e o amor ao próximo

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