O sequestro da razão

Ricardo V. Malafaia     28/junho/2020

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Antes de dissertarmos sobre o tema, aqui vai um conselho: quando perceber que você quase sempre concorda com as decisões e manifestações de uma determinada liderança política, seja ela qual for; com os seguidos alinhamentos automáticos apresentados pelos mesmos apoiadores formadores de opinião; e com as inúmeras narrativas “sob medida” que lhes chegam, a todo o momento, por suas redes sociais, procurando explicar quaisquer polêmicas recentes, comece verdadeiramente a desconfiar de sua própria capacidade de julgamento. Sem se dar conta, por mais bem intencionado que esteja, ela pode estar bastante avariada.

“Nunca tenha certeza de nada, pois a sabedoria começa com a dúvida”, dizia Freud.  Ou, se quisermos voltar um pouco mais, encontramos Platão citando seu mestre Sócrates com o célebre “Só sei que nada sei”. O pai da filosofia ocidental, em toda a sua genialidade, paradoxalmente reconhecia a sua própria ignorância. Possivelmente nos quis deixar um recado, mas, como tudo indica, não foi muito bem compreendido.

O mais interessante é que, se buscarmos em nossa memória, lembrar-nos-emos, possivelmente, de uma ou outra vez que tenhamos discordado de nossos pais. Ou das vezes que nos opomos a alguns posicionamentos de nossos filhos. Afinal, nada mais comum do que eventualmente divergir de quem mais amamos. Comum, normal, e até saudável! Então, por quais causas transcendentais muitos hoje “fecham em tudo” com as suas lideranças políticas ou com as suas visões de mundo, de forma tão fiel, e sem quase nada questionar?

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Procurando achar alguma lógica nesta postura ilógica, talvez encontremos, escondido no fundo da mente e do coração, a única justificativa plausível para tamanha cegueira: o medo. Sim, o medo. Um sentimento que nos auxilia em horas importantes, mas que pode afetar a própria razão se passar de certa medida.

No embate entre Direita e Esquerda, o medo de retrocessos em cada modo de enxergar o seu entorno transforma-se em mola propulsora para aceitar pecados, relativizar crimes e justificar desvios. No mundo do faz de conta destas duas ideologias que jamais trouxeram algo de positivo para a humanidade, ajeitar uma narrativa aqui e outra ali virou lugar comum. E o esforço para colocar, a todo o momento, um elefante dentro de um fusca é compartilhado pelos dois lados.

O que faz, por exemplo, justificar a manutenção no cargo de um Weintraub, cujos seus três neurônios jamais o permitiram entender que o desafio para reduzir o fosso que há entre o nível de conhecimento dos nossos jovens, comparando-os com os de outros países, é tão grande que deveria ser a sua absoluta prioridade? Como não entender que, a partir de seus eventuais sucessos nesta empreitada, teria toda a confiança da sociedade para fazer os ajustes necessários que pudesse corrigir as distorções legadas pelo petismo?

E o que faz com que justifiquem o apoio a um Ricardo Salles, cuja postura parece mais a de um advogado de acusação do que um de defesa do Meio Ambiente? Da mesma forma que deveria ter feito o que o seu ex-colega da Educação não fez, primeiro deve-se mostrar ao que veio, para depois fazer as correções necessárias. Como justificar todas as trapalhadas feitas até aqui na pasta, cujo maior legado, além da complacência com a destruição de dezenas de milhares de hectares de biodiversidade, foi afugentar gigantescos fundos de investimento de nossa economia?

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O que faz muitos passarem décadas desmanchando-se em elogios ao regime totalitário castrista, e como num passe de mágica, tornarem-se democratas por excelência, sentindo-se à vontade para chamar o bolsonarismo e seus apoiadores de antidemocráticos? Como se dá esse processo sem culpa? Através de um “boot” no HD da consciência?

Como conseguem culpar a Lava Jato pela criminalização de Lula, alegando que seu processo não ocorreu com a devida independência, apesar de ter sido julgado e condenado em quatro instâncias por quase unanimidade? O que faz não entenderem que a corrupção, a impunidade, a manutenção de privilégios e a péssima qualidade do ensino, combinados entre si, formam a principal barreira para o fim da pobreza?

Falando em corrupção, como podem defender um garoto mimado e, como tudo indica, criminoso pelo uso de rachadinha? Mesmo covardemente refugiado embaixo das barras da saia do seu pai, assiste o governo dar um cavalo-de-pau no compromisso de campanha quanto ao combate à corrupção, desmontando o projeto anticrime e a Lava Jato. Que fique claro que este governo não foi eleito apenas para não ter casos de corrupção no primeiro escalão. O compromisso era de que o combate a ela fosse um dos seus principais pilares. Contudo a escolha pela proteção ao rebento travesso chutou para o alto a ética prometida.

E como não falar da defesa das cloroquinas da vida? Uma coisa é defender o uso pontual de alguns medicamentos para auxílio no combate à pandemia. Outra coisa é viajar na imaginação e acreditar que medicamentos não comprovados, apesar de testados por dezenas de centros de referência mundo afora, possam substituir as medidas de isolamento social no período agudo da doença. Quem sabe até que o Covid-19 seja membro oculto da antiga KGB ou do partido comunista chinês?

Lamentavelmente, há quem pense que os Estados Unidos são de direita ou que os países escandinavos são de esquerda. Não são. Estes países deram certo por que nenhuma aventura ideológica passou por lá. No primeiro mundo, governos mais para direita ou para esquerda sucedem-se sem que as instituições sofram qualquer arranhão. Em terras norte-americanas, presidentes sucedem-se de forma ininterrupta desde a sua independência em 1776. E por isso eles são o que são.

A América Latina por séculos foi o quintal de experiência das grandes potências. Aqui roubaram, e deixaram para trás, como lixo a ser descartado, essas duas ideologias fracassadas. E, o que é pior, milhões de brasileiros caíram “na pilha” e as adotaram como visão de mundo.

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Para cuidar das pessoas, dos seus valores e do seu futuro, precisamos desenvolver a nossa própria ideologia. Uma que tenha a Lógica e o Amor ao próximo como nortes absolutos. Caso contrário, a razão continuará sequestrada. Possivelmente, no banco de trás de um fusca dirigido por um elefante.

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